Míriam Leitão
O Globo
A política de criar "campeões nacionais", que será abandonada pelo BNDES, é errada desde o início. A ideia era a seguinte: o Estado escolhia algumas empresas, que comprariam outras do setor, ficando fortes para ganhar o mercado internacional.
Essa visão paternalista e estatizante já foi experimentada pelo Brasil nos anos 70, no governo militar, mas a receita não deu certo. Muitas das empresas escolhidas à época morreram. As companhias devem jogar o jogo global, mas têm de mostrar na sua estratégia capacidade para isso, não o Estado dizer com qual empresa uma companhia tem de se "casar".
Luciano Coutinho, presidente do BNDES, disse ao "Estadão" que essa política foi adotada nos segmentos de petroquímica, celulose, frigoríficos, siderurgia, suco de laranja e cimento. E seria abandonada porque esgotaram-se os setores.
É bom que o banco a abandone; mas não está fazendo isso porque faltou setor. Ela deu errado e foi criticada inclusive dentro do governo.
Quando o BNDES entrou no setor de leite, o banco deu com os "burros n'água". Um ano depois de a Lácteos Brasil (LBR) ter sido criada, quebrou. O banco entra de sócio e faz empréstimos.
No caso dos frigoríficos, eles já vinham se internacionalizando, o país já tinha se tornado o primeiro produtor mundial de carne bovina, quando o BNDES decidiu que teria de haver a concentração. Várias empresas saíram do mercado - a Bertin, por exemplo, por orientação do BNDES, saiu do setor de carne e foi fazer energia, mas errou completamente nessa área, com prejuízos para o país. Ganhou licitações, mas não tinha conhecimento do setor.
Essa é uma estratégia equivocada. Se o empresário é bom, ele conduzirá os seus negócios, o Estado não precisa dizer para ele o que fazer. A concentração de um determinado setor não faz uma empresa forte. É uma política equivocada. Se as empresas não são eficientes sozinhas, não é o "papai" Estado que vai garantir isso.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Bom, não foi falta de crítica que se deu a repetição do erro histórico. E não é apenas no BNDES que o governo Dilma tenta repetir o mesmo receituário experimentado nos governos militares. Toda a política econômica está impregnada de medidas que já se revelaram rotundos enganos e fracassos. O pior é que o governo parece não estar convencido de que aquelas “políticas” foram responsáveis diretos dos 25 anos de estagnação econômica e impressionantes desequilíbrios sociais.
Agora, é de se perguntar: quem bancará os prejuízos que tais investidas resultaram? Adivinhem... Triste é constatar que a oposição jamais despertou para este equívoco, como ainda sequer se pronunciou sobre os prejuízos para o contribuinte, nem para o anúncio do abandono. Não é a toa que o PT deita e rola no poder...