Comentando a Notícia
(...) Horacio Cartes foi eleito, neste domingo, presidente do Paraguai, com o reconhecimento de sua vitória pelo Supremo Tribunal Eleitoral do país após a apuração de 80% das urnas. Cartes era favorito em quase todas as pesquisas e sua vitória foi reconhecida pelo opositor, Efraín Alegre, do Partido Liberal. Ao longo da contagem, o conservador manteve uma diferença média sobre Alegre de dez pontos percentuais, com 45% contra 35% do adversário. No país não há segundo turno.
A vitória de Cartes leva de volta ao poder a legenda que governou o país de 1948 a 2008, quando Fernando Lugo, que concorreu ao Senado ontem, ganhou a Presidência. A eleição de Lugo de Lugo ontem ao Senado representa uma volta por cima para o ex-bispo católico, que sofreu um impeachment relâmpago no ano passado, um processo apoiado por colorados e liberais. O Senado destituiu o então presidente após dar duas horas para que ele se defendesse. Assumiu então o seu vice, Federico Franco, do Partido Liberal.
O país foi questionado e depois suspenso de dois organismos regionais, a Unasul e o Mercosul. O Brasil, entre outros países, retirou seu embaixador do Paraguai.
A expectativa do pleito é que ele normalize as relações diplomáticas com os vizinhos. Mais de 500 observadores internacionais acompanharam a eleição, que renova o Senado, a Câmara e o governo das províncias. Antes da divulgação do resultado, a Unasul afirmou que houve marginalização dos partidos menores e compra de votos. Oscar Arias, representante da Organização de Estados Americanos, disse que confiava “plenamente” nos resultados ainda a serem divulgados pela Justiça Eleitoral.(...)
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- A suspensão do Paraguai deve ser exemplar, para desencorajar esse tipo de desvio da vigência democrática. Sem a democracia, não há integração - disse o porta-voz do Itamaraty. (...)
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Entretanto, para o historiador Francisco Doratioto, no entanto, o impeachment de Lugo foi absolutamente de acordo com a Constituição do Paraguai, e a exclusão do país do Mercosul se deveu a um posicionamento ideológico da Venezuela e da Argentina. O Brasil, disse, seguiu os dois vizinhos para manter a unidade na região.
- Existe mais democracia no Paraguai do que na Venezuela. É uma situação esdrúxula muito mais grave a que está acontecendo na Venezuela agora do que a que aconteceu no Paraguai - comparou Doratioto, referindo-se ao fato de que os deputados que não apoiam a eleição de Maduro correm o risco de serem cassados. (...)
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Os trechos acima foram extraídos de duas reportagens do jornal O Globo sobre as recentes eleições no Paraguai e servem para ilustrar a questão que se abre sobre a participação do país vizinho nas suas relações continentais com Brasil, Argentina, Uruguai e, principalmente, Venezuela.
Logo após a destituição de Fernando Lugo, o Paraguai foi suspenso do Mercosul e da tal UNASUL. Acima, temos a justificativa dada pelo Itamaraty para a lambança que o Brasil ajudou a criar com Argentina e Uruguai. Com a suspensão, também os embaixadores destes países foram “recolhidos”.
Na época, demonstramos aqui a legitimidade do processo que, inclusive, foi assegurado pela Corte Suprema paraguaia, já que todas as exigências previstas na Constituição daquele país foram cumpridas e atendidas.
Como também apontamos que a farsa era muito mais um pretexto rombudo para enfiar a Venezuela no Mercosul, jpa que o Congresso paraguaio se negava em apoiar a proposta por entender que a Venezuela de Chavez não cumpria o que se entende por democracia.
Mas, e agora, como fica? Argentina e Uruguai já expressaram seu desejo em ver o Paraguai readmitido no bloco econômico e já até convidaram o presidente eleito para participar das próximas reuniões, convite educadamente não aceito por Cartes, já que ele assumirá apenas em agosto. `
Ocorre que se o Paraguai retomar seu assento legítimo teríamos um verdadeiro impasse, uma vez que ele nunca aceitou o ingresso da Venezuela (o ingresso deve ser aprovado por unanimidade), e até porque as relações do Paraguai com a Venezuela não nada amistosas, uma vez que Chavez tentou alimentar um golpe de estado para repor Fernando Lugo no poder.
É claro que o Congresso paraguaio continuará não aprovando a Venezuela no Mercosul e qualquer tentativa de acordo entre os dois países no âmbito do bloco encontrará sérias resistências e obstáculos de toda a ordem.
Comentava-se em Brasília que o Brasil, pelos canais diplomáticos, tentaria convencer o Congresso paraguaio a aprovar a Venezuela e, com isso, todas as arestas estão devidamente aparadas.
Creio ser outra intromissão indevida do Brasil em assuntos internos de uma nação independente. Aliás, no Paraguai, o Brasil é tido como imperialista, razão porque não espero que nova intromissão seja bem aceita.
Além disto, é preciso entender que o empresário Horacio Cartes não veste bem o perfil do governante bem visto pelo clubinho da UNASUL. Não é de esquerda, é um empresário forte e rico e pertence a um partido historicamente de direita.
Se o Mercosul já vem bastante combalido pela falta de compostura da presidente Cristina Kirchner, que teima em não cumprir os acordos que firma com os demais integrantes do bloco econômico, se o ingresso da Venezuela trouxe para o bloco um caráter político que ele não deveria ter, o levantamento da suspensão do Paraguai, certamente, aumentará os pontos discordantes dentro dele. Não se pode esquecer de que um movimento de Argentina e Brasil para forçar o ingresso da Bolívia, aumentando ainda mais a tensão e as divergências.
Diante disso, o Mercosul começa a se esfacelar como uma união econômica. E enquanto o Brasil insistir em dar asas à Argentina, mais ele se descaracterizará de sua finalidade inicial. Pena, lá atrás, quando de sua fundação, a pretendida tinha tudo para dar certo e beneficiar todos os seus integrantes. Da forma vem se desenhando sua atuação, o bloco servirá mais como estorvo do que como solução para o desenvolvimento e integração do continente.