Míriam Leitão
O Globo
Normalmente, quando a inflação sobe, há muito ruído. O brasileiro tem mostrado intolerância grande com a alta de preços, o que é bom. Para tentar contê-la, o governo tem reduzido impostos. Mas há dois tipos de desonerações: uma mais estrutural, como a que atinge a folha de salários, por exemplo. Outra é feita para tentar reduzir preços, como a medida que baixou o IPI dos automóveis. Essa desoneração tem perna curta, não reduz a inflação. O Ministério da Fazenda também tem administrado o índice, como fez com o aumento das passagens de ônibus.
Já o BC estava sendo considerado muito leniente com a inflação alta demais e começou a ser cobrado por isso. Vinha dizendo que ela cairia no segundo semestre, mas de repente, mudou o discurso e o texto das atas e dos comunicados. Ontem, Tombini falou claramente que não estava olhando a paisagem e, se preciso, usaria o que fosse necessário para contê-la.
A comemoração com a queda da taxa de juros foi tão grande no ano passado, tratada como um ganho do governo Dilma, que se começou a pensar que o BC estaria "amarrado" sem poder fazer nada. Quando isso acontece, as apostas de que a inflação vai subir começam a se multiplicar na prática. Quem vai aumentar seu preço reajusta mais alto.
Acho que o BC, agora, está mudando o discurso, dizendo que está "livre" e, se precisar, pode subir os juros. Ajudou a complicar a situação a declaração da presidente feita na semana passada. Ela achou que foi mal interpretada, mas falou claramente que não se deve combater a inflação a custa de crescimento econômico. Isso aí bateu numa velha crença do PT.
A presidente, então, refez sua declaração e, em seguida, Alexandre Tombini, presidente do BC, passou a ser mais enfático. Não acho que esteja discordando de Dilma Rousseff, mas talvez a presidente tenha mandado reorganizar o discurso para passar a mensagem certa, já que aquela declaração que havia dado deixara uma ambiguidade no ar.
A inflação não tira só a capacidade de consumo dos trabalhadores, a economia como um todo começa a ficar mais disfuncional. Torna o ambiente de negócios mais hostil, isso é contra o crescimento econômico.
Tomara que o governo tenha entendido isso, porque temos longos anos nessa luta contra a inflação e sabemos o que não se pode fazer. Quando se escolhe mais inflação, temos no futuro menos crescimento. É certo como dois e dois são quatro.