Adelson Elias Vasconcellos
O Ministério Público não se deixou intimidar pelas ameaças, pela gritaria e decidiu, sim, investigar as relações de Lula com a turma e, principalmente, com a grana que irrigou o Mensalão. Bom que seja assim: nenhum país poderá ser decente minimamente, se seus órgãos fiscalizadores e investigativos se deixarem levar pela famosa sentença “sabe com quem está falando?”. Aliás, esta cultura primitiva é que acabou alimentando esta teia de impunidade que varre toda a classe política brasileira.
Não sei se as investigações chegarão a algum resultado prático do tipo “Lula é culpado disto ou daquilo também”. Mas, se há reais indícios de sua participação, conhecimento ou até autorização para que o esquema acontecesse, não há nenhuma razão moralmente decente para que ele seja excluído.
Para os habituais poucos leitores do blog, é conhecida nossa posição desde que o escândalo estourou em 2005. Seria impossível que Lula desconhecesse ou até mesmo não tivesse autorizado que o esquema se realizasse da forma como os fatos se deram e que as investigações comprovaram. Nada se realiza à sua volta sem seu aval. Nada se decide sem que ele carimbe um “aprovado” ou “não aprovado”. Um esquema de tal envergadura jamais se realizaria sem que o tivesse autorizado. E mesmo José Dirceu, várias vezes, confessou que nada era feito sem o conhecimento da chefia. Portanto, no mínimo, Lula ou foi omisso ou foi conivente.
Duas razões empurram Lula para dentro daquele furacão. Uma, ele seria o único interessado e beneficiário direto pela compra de votos. Não se tratava de um esquema de enriquecimento ilícito, e sim de verdadeiro golpe aos poderes constituídos, no caso, o Legislativo federal. E o grande chefe da turma, aquele que comandava as operações políticas do projeto de poder petista, era Lula. Assim, se os projetos petistas fossem aprovados espertamente pelo Congresso rendido ao Executivo, Lula se beneficiava como chefe da tropa.
Ao menos duas reuniões tiveram a participação direta de Lula. Uma do Dirceu com Waldemar Costa Neto e a outra, em que ele aprovou o acordo por telefone, feita entre Dirceu e Roberto Jefferson.
Isto, para nós, nunca foi novidade nem tampouco um fato estranho. Claro que na Justiça provar este tipo de participação é difícil, já que corruptos não dão recibo nem passam recibo com assinatura reconhecida em cartório. É preciso esmiuçar os fatos, perseguir outros indícios às vezes menos visíveis para se chegar ao ponto. Tivesse Marcos Valério, quando teve oportunidade preciosa para fazê-lo, feito as declarações que fundamentam as investigações ora abertas, e certamente muita porcaria já teria vindo à tona. No fundo, não acredito que estas investigações resultarão em abertura de processo. É muito mais viável que outra apuração, a do BMG e os tais empréstimos consignados possa enredar Lula numa ação judicial. Em todo caso, devemos louvar a coragem do Ministério Público neste caso de agora, por mandar às favas a tropa de choque do ex-presidente que tudo faz e fez para impedir que seu líder responda na justiça os crimes que cometeu.
Do mesmo modo, é de se esperar que um dia, quem sabe, outras histórias mais escabrosas ainda sejam esclarecidas como, por exemplo, a falência da VARIG, a relação promíscua para a compra da Brasil Telecom que até se mudou a lei para legalizar um negócio feito ilegalmente, as tais cartilhas petistas pagas com dinheiro público, sem falar da palhaçada que ficou conhecida como o Escândalo dos Aloprados.
Motivos para Lula ser investigado, convenhamos, é que não faltam. Resta saber se o Ministério Público e Polícia Federal terão a coragem necessária para encarar esta batalha, sempre pensando primeiro no interesse do país e o respeito às leis vigentes. Qualquer país que deseja ou aspira ser sério, civilizado,desenvolvido vivendo a plenitude do estado de direito democrático não pode engolir aceitar que crimes sejam ignorados por respeito (ou medo) aos criminosos.