Vivian Oswald
O Globo
Para Eliza Filb, maneira de agir e convicções fortes de ex-premier se explicam por religiosidade
Ela acredita que importância de ex-premier para História é indiscutível, apesar do legado negativo
LONDRES — Especialista em Margaret Thatcher, a professora de História Contemporânea do King’s College Eliza Filby afirma que é indiscutível a importância da ex-primeira-ministra britânica para a História do país, apesar do legado negativo que terá deixado, como o excesso de liberdades no mercado financeiro. “Mas ela também tirou o país do caos”, disse ao GLOBO. Para Filby, que está prestes a lançar o livro “God and Mrs. Thatcher”, as convicções da Dama de Ferro e a maneira de agir se explicam por sua religiosidade.
O GLOBO: Qual foi o legado de Thatcher para o Reino Unido?
Eliza Filby: Ela tirou o país de um grande caos que vinha desde o século XIX. Quando assumiu o poder, estava determinada a criar um sentimento de confiança nacional e de revitalização. E conseguiu. Mas também prometeu melhorar a situação econômica e conter a inflação, o que não aconteceu até deixar o cargo. Mas é indiscutível a sua importância histórica. Lutou contra preconceitos da esquerda e da direita, foi a única mulher primeira-ministra.
O GLOBO: Mas ela não agradou a todos os segmentos da população com as políticas liberais...
Eliza Filby: Não. As privatizações realizadas em seu governo deram certo e outras medidas econômicas também. Mas ela destruiu, por exemplo, a indústria do carvão e outros segmentos industriais, uma derrota simbólica para a força histórica dos sindicatos, que causa muita insatisfação até hoje. São reveladores os números que mostram que, no final dos anos 80, pouco antes de Thatcher deixar o cargo, as pessoas que tinham ações de empresas eram mais numerosas do que aquelas que pertenciam a sindicatos.
O GLOBO: Críticos dizem que ela tem responsabilidade na crise financeira mundial de 2008...
Eliza Filby: Não deixa de ser verdade. Se as suas políticas para tornar Londres um centro financeiro, com a desregulamentação deste setor, funcionaram no curto prazo e têm até hoje o impacto de manter dinheiro no pais, elas também eliminaram regras demais, o que provocou as turbulências aqui dentro. E é um dos motivos da recessão de agora.
O GLOBO: A que se atribui a personalidade forte da Dama de Ferro?
Eliza Filby: Ela era uma pessoa de convicção, daí o apelido. Era uma mulher de valores, de alguma maneira valores muito religiosos, por ter sido uma pregadora antes de política, filha de um pai pregador local metodista. Ela cresceu indo à igreja todos os domingos. Seus valores estão muito ligados ao papel do indivíduo sobre o Estado, à liberdade dos indivíduos.
O GLOBO: É consenso que ela dividia opiniões dentro do país.
Eliza Filby: Ela era mais um fenômeno inglês do que britânico. Era desprezada na Escócia e no País de Gales.
