Gustavo Machado
Brasil Econômico
Crises internas e externas dos membros desvirtuaram os propósitos do bloco, que hoje, mais atrapalha que ajuda.
Rubens Barbosa:
"Enquanto o Brasil consegue aprovar um acordo comercial, o mundo negocia 500"
As agendas das reuniões de cúpula do Mercosul estão cada vez mais delicadas. No último ano, as pautas de discussões envolviam não só as questões econômicas, sempre conturbadas, mas também políticas, com a suspensão do Paraguai.
Os problemas internos de cada país, desde então, ainda não foram resolvidos e o Brasil continua a se ver preso ao bloco para conseguir bons acordos comerciais. Também vê se desgastar a cada dia sua relação com o principal parceiro, a Argentina. Com isso, muitos especialistas questionam os benefícios que o país obtém ao continuar membro do bloco, mas dizem ser praticamente impossível deixá-lo depois de duas décadas.
Nos próximos dias 11 e 12, presidentes e ministros de relações exteriores dos quatro membros ativos - Argentina, Brasil, Uruguai e Venezuela - se encontrarão em Montevidéu para discutir, principalmente, a volta do Paraguai ao bloco. No entanto, nem mesmo a presença dos quatro chefes de estado está garantida.
Embora o Planalto afirme que Dilma Rousseff viajará quinta-feira à noite para o Uruguai, rumores sugerem que a presidente está prestes a cancelar a viagem devido à greve marcada para o dia 11.
A presença de Cristina Kirchner também não é garantida. A articulação política para as eleições legislativas estão tomando quase todo o tempo da presidente argentina. Se as duas não participarem da reunião, o Paraguai não pode voltar ao bloco.
Na agenda bilateral Brasil-Argentina, há o desinvestimento brasileiro em terras portenhas e o fim do acordo automotivo. Fontes indicam que outro já está pronto para ser assinado.
Com tantos problemas, a crise paraguaia está gerando uma torcida contra a volta do país. Não que alguém queira que o Paraguai seja alijado do Mercosul, mas caso o país recuse sua reintegração ao bloco, um grave precedente seria criado e outros membros poderiam debandar.
Para voltar, o Paraguai exige a presidência do Mercosul, que era sua até a suspensão. Com a presidência, o país pretende dificultar a integração da Venezuela, cuja adesão não foi aprovada pelo congresso do país.
Os conflitos são tantos, a ponto do embaixador Rubens Barbosa questionar a viabilidade do bloco. "Enquanto o Brasil conseguiu apenas um acordo comercial bilateral, o mundo negocia 500", diz. Segundo ele, o Mercosul até poderia ajudar na assinatura de novos acordos, mas os propósitos para o qual foi criado, como a sonhada integração produtiva, foram abandonados. "Somente na cadeia automotiva houve algum avanço. É coisa muito pouca."
Em Brasília, a avaliação oficial é de que tudo anda bem no Cone Sul da América. Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), em audiência ao Senado, disse que não percebeu nenhum prejuízo comercial recente.
Talvez a queda de 18% de exportações brasileiras para o bloco em 2012 já estivessem na conta do ministério. Além disso, ele espera que os investimentos feitos pelos membros nos parceiros comerciais saltem dos atuais R$ 22 bilhões para R$ 400 bilhões nos próximos 10 a 12 anos.
O ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira avalia que o bloco não faz mais sentido e que só há futuro para o Mercosul devido à iniciativa privada. Segundo ele, somente os empresários poderão dizer se o bloco traz mais vantagens ou não para o país. "O fato é que o Brasil poderia estar melhor posicionado nas cadeias globais de produção. A falta de acordos comerciais nos mostra que estamos isolados e, novamente, órfãos do mundo", avalia.
A iniciativa privada, inclusive, pretende entregar à cúpula do Mercosul um projeto que permite que um país assine um acordo comercial com outro de fora do bloco sem a necessidade da adesão dos outros membros. A aprovação dos executivos e legislativos de todos os países também seria desnecessária.
A proposta, cunhada pela Câmara de Comércio Argentino Brasileira, baseada em ambos os países, será apresentada no fórum empresarial marcado para o primeiro dia de reuniões. Depois, deve ser levada aos chefes de estado.
Alberto Alzueta, presidente da câmara baseada no Brasil, diz que o país precisa buscar acordos de sua vocação. "É preciso um mecanismo que dê essa condição. Acho que isso pode melhorar as relações comerciais e políticas.
Hoje, sair do bloco não é uma possibilidade concreta. Além disso, um mercado de US$ 55 bilhões sempre é interessante. Mas há um desgaste recente e as regras precisam ser aperfeiçoadas", reclama.
