quarta-feira, julho 10, 2013

Um dicionário para Dilma

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

“A família está toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário amarelo.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta: – Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos para fingir que dorme. O pequeno insiste: – Papai?

Dona Bernardina intervém: – Ó seu Rodrigues. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

- Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?  Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

- Que me diz? Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

- Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

- Alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

- Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra.

O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada: – Mas se eu sei!

- Pois se sabe, diga!

- Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa!

O senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta. No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário….

Dona Bernardina dá um beijo na filha e vai bater à porta do quarto: – Seu Rodrigues, não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

- É boa! – brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio – é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu! …

O homem continua num tom profundamente dogmático: – Plebiscito …

E olha a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

- Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, em comícios.  Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo”!

 PLEBISCITO
Esse conto clássico, de 1890 (aqui condensado por falta de espaço), é do múltiplo escritor maranhense Arthur de Azevedo (1855-1908), jornalista, poeta, teatrólogo. Um José Sarney melhorado.

O ministro Mercadante e o marqueteiro João Santana, também  Patinhas, os dois únicos palacianos que a presidente Dilma ouve, deviam ter dado esse conto para ela ler. Para não continuar dizendo bobagens na TV sobre Constituinte e Plebiscito, mudando de posição a cada dia. DEviam ter dado o “Dicionário  Parlamentar e Político – O Processo Político e Legislativo no Brasil”, do ex-ministro  Said Farhat (Ed Melhoramentos). :

FARHAT
-“Constitucionalistas e Cientistas Políticos divergem sobre a definição, o alcance e a natureza do plebiscito e do referendo. A ideia de plebiscito, diz Gláudio Gemma, remonta à convocação da plebe romana pelo tirano do dia. Ou então, conforme Carlo Baldi, a praxe dos plebiscitos ascende em sua essência à revolução francesa”..

“A doutrina sedimentada concorda no seguinte: o plebiscito antecede a lei – o eleitorado diz se aceita ou recusa determinada proposta. O referendo é posterior à lei – os eleitores a homologam ou não”.

É perda de tempo. PT não lê. Governo do PT também. Lula proibiu.