Renato Grandelle
O Globo
Relatório holandês mostra que emissões continuam a aumentar, mas a uma taxa menor do que em anos anteriores
Latinstock
As emissões a partir de carvão continuam a aumentar,
mas a uma taxa menor do que em anos anteriores
RIO - O aumento da emissão de dióxido de carbono na atmosfera está desacelerando. Embora a economia global tenha crescido 3,5% em 2012 em relação ao ano anterior, a liberação de CO2 avançou apenas 1,4%. E a diferença entre estes dois índices pode tornar-se ainda mais evidente no futuro próximo, segundo um relatório divulgado ontem pela Agência de Avaliação Ambiental da Holanda (PBL) e pelo Centro Comum de Pesquisas da União Europeia.
O documento ressaltou que, no ano passado, a liberação de CO2 na atmosfera atingiu o patamar de 34,5 bilhões de toneladas, um recorde histórico. Mas a maior surpresa foi a dissociação entre o aumento das emissões e o crescimento econômico. O mundo, agora, recorre menos a combustíveis fósseis e presta mais atenção à energia renovável.
— Todos os países buscam o aumento da eficiência energética, ou seja, querem produzir mais bens e serviços com menor taxa de emissões de CO2 — explica Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. — A comunidade internacional depende cada vez menos de combustíveis fósseis.
Estados Unidos, União Europeia e China, que respondem por 55% das emissões de CO2, influenciaram a desaceleração na liberação de gases-estufa. Suas iniciativas na área ambiental foram classificadas como “notáveis” pelo relatório.
Xisto substitui carvão
Nos EUA, a substituição do carvão pelo gás xisto na geração de eletricidade já traz resultados. As emissões de gases-estufa caíram 4% no ano passado, principalmente por causa da contínua mudança do carvão para o gás na geração de eletricidade. O xisto agora é responsável por quase um quarto da produção total de petróleo.
— O uso de gás xisto começou a crescer entre 2007 e 2008 e segue esta trajetória — elogiou Greet Maenhout, um dos autores do documento da PBL, em entrevista à BBC. — Não creio que este fenômeno vai se arrefecer a curto prazo. Há um estímulo econômico para novas expansões.
Mais hidrelétricas na China
As emissões chinesas de CO2 cresceram 3% entre 2011 e 2012. É uma redução significativa em relação à média anual de 10% registrada na década passada. Pequim, nos últimos anos, encerrou um pacote de estímulo à economia, o que elevou o valor da eletricidade. Ao mesmo tempo, aumentou em 23% o uso de hidrelétricas.
— A economia do país cresce até 9% ao ano, mas a participação dos combustíveis fósseis no setor produtivo é cada vez menor — ressalta Artaxo. — O país investe pesadamente em energia eólica e solar.
Na União Europeia, a redução das emissões foi de 1,3% entre 2011 e o ano passado. O consumo de petróleo e gás diminuiu 4% no transporte rodoviário.
O bom índice europeu deveu-se à recessão que atinge parte dos 27 países do bloco. Especialistas temem que a recuperação da economia do continente aumente o percentual das emissões de CO2. Artaxo, no entanto, descarta esta hipótese:
— Existem boas iniciativas no continente para a adoção de fontes energéticas renováveis — destaca. — A Alemanha investe em energia solar. Na Dinamarca, o setor eólico é forte. E boa parte da economia francesa é baseada na energia nuclear, que não tem emissões diretas de CO2.
O Brasil, segundo Artaxo, também contribuiu para a redução da liberação de carbono na atmosfera.
— Nossas emissões foram reduzidas brutalmente, principalmente devido ao combate ao desflorestamento da Amazônia — lembra. — Em 2004, 27 mil km² de área verde foram desmatados. Em 2012, foram 4,8 mil km².
Em todo o mundo, a energia renovável cresce em ritmo acelerado. Demorou 15 anos para que sua representação na economia global crescesse de 0,5% para 1,1%, mas foram necessários apenas seis anos para ela dobrasse novamente, ou seja, atingisse 2,2% em 2012.
