Editorial
O Globo
Preço e tecnologia favoreceram o caça sueco, enquanto a espionagem eletrônica não ajudou a Boeing e a falta de apoio francês na OMC deve ter prejudicado a Dassault
Uma compra bilionária de sofisticada arma de guerra é complexa e envolve vários aspectos, além de parâmetros óbvios, como preço e qualidade. A opção feita pela nova geração do caça sueco Grippen, fabricado pela Saab, para renovar a força de interceptação aérea do país, é um exemplo.
Numa visão preliminar, o Grippen parecia sem condições de competir com o F-18, da americana Boeing, aprovado com sobras em combate mundo afora, e o francês Rafale, da Dassault, fabricante dos confiáveis e admirados Mirage, que estão prestes a ser desmobilizados na Força Aérea Brasileira, por tempo de serviço.
Muitos fatores ajudaram os suecos. Inclusive preços e custo operacional. A compra dos primeiros 36 caças, que poderia chegar a US$ 7 bilhões, sairá por US$ 4,5 bilhões — nada mal para um país com problemas fiscais.
Com uma turbina apenas, em vez das duas do F-18 e do Rafale, o caça sueco tem custo por hora de voo estimado em US$ 4.700, contra US$ 11 mil do jato americano, para se ter um parâmetro.
Se, no desembolso financeiro para o comprador, o Grippen aparecia na liderança da licitação, na questão-chave da transferência de tecnologia ele se tornou imbatível. Este é um campo em que os americanos costumam ser restritivos e no qual a proposta francesa também deve ter ficado aquém do esperado.
Na prática, por meio da Embraer, o Brasil será cofabricante do Gripen NG (New Generation), de que já há um protótipo em teste com 300 horas de voo.
Uma aposta parecida com esta foi feita na ditadura militar, no governo Geisel, quando o Brasil se associou aos alemães para desenvolver um novo método de enriquecimento de urânio, e assim furar o bloqueio tecnológico que há na área nuclear. Não deu certo, o país perdeu bilhões e terminou se valendo mesmo do método tradicional das ultracentrifugadoras, aperfeiçoadas pelo “programa paralelo”, de cunho militar.
Há, porém, diferenças a favor da operação em torno do caça sueco. Além de ele ser a evolução de um modelo existente, em operação não só na Suécia, mas também na Hungria, na África do Sul, na Tailândia e na República Tcheca, na ponta brasileira do negócio estará a Embraer, terceiro maior fabricante de aviões do mundo, garantia de que haverá absorção de tecnologia. Não é preciso formar mão de obra do zero.
No aspecto político-diplomático, ficou evidente que a bisbilhotagem eletrônica do governo americano prejudicou a Boeing. E é provável que a falta de apoio francês à eleição do brasileiro Roberto Azevêdo para a direção-geral da OMC não tenha ajudado a Dassault.
Não bastassem esses aspectos, o Grippen era o preferido da FAB. Lula, ainda no governo, movido pelo faro político-diplomático, chegou a anunciar a escolha do avião francês, o Rafale, numa visita do então presidente Nicolas Sarkozy. Teve de voltar atrás, não mais tocou no assunto.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O preço dos caças suecos, se comparado com o francês e o norte-americano, era bastante atraente. Considerando a total transferência de tecnologia combinado com um baixo custo de manutenção das aeronaves, não tem como se dizer que a oferta sueca era uma verdadeira pechincha.
Mas ficamos por aqui. O que preocupa? Se a capacidade detalhada na oferta será real ou não. É bom destacar que se trata de um modelo ainda em desenvolvimento, portanto, ainda não testado. E aí começam a aparecer alguns detalhes curiosos. Diz-se que a Suécia se disporia a fornecer caças usados até que os modelos a serem fabricados sejam entregues. Qual será o custo desta bondade? Mais: o tal preço total, de US$ 4,5 bi, vai ser mantido até o final do contrato, ou teremos aqueles famosos “aditivos” que servem para engordar o fornecedor e enganar a torcida?
Aparentemente, portanto, a escolha até pareceu adequada. Resta saber se a “oferta inicial” conseguirá ser mantida e cumprida até o final do contrato, coisa rara em se tratando de negócios públicos.