O Estado de S.Paulo
Não há nada de muito diferente nas contas externas de novembro do que vem ocorrendo nos últimos meses: déficit crescente na conta corrente do balanço de pagamentos, insuficiência de Investimento Estrangeiro Direto (IED) para cobrir o desequilíbrio do ano, aumento das saídas de capital e das remessas para o exterior e, afinal, gastos cada vez maiores com turismo e importações, inclusive de bens de consumo produzidos internamente. A situação cambial piora, portanto. E o desequilíbrio fiscal é o vilão, pois impede a queda do juro. O juro alto tolhe a política cambial e o governo segura o câmbio na tentativa de evitar uma inflação descontrolada. Como resultado, o dólar barato provoca o agravamento do déficit externo, sem que se vislumbre mudança nessa trajetória.
O dado mais positivo das contas cambiais de novembro - o ingresso de US$ 8,3 bilhões em IED - deveu-se a um fato atípico: a entrada de US$ 4,1 bilhões para pagar os bônus de assinatura do leilão do Campo de Libra, no pré-sal. Mas nem isso evitou um déficit corrente de US$ 5,1 bilhões no mês, de US$ 72,6 bilhões neste ano e de US$ 81,1 bilhões nos últimos 12 meses.
O déficit anual em conta corrente - principal medida de comparação da situação cambial de cada país - aumentou de 2,41% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2012, para 3,57% do PIB (ou US$ 79 bilhões), neste ano, estima o Banco Central (BC). O setor privado prevê um déficit maior, de US$ 82,4 bilhões no ano.
Por ora, a deterioração do balanço de pagamentos é compensada, em parte, por aplicações em títulos soberanos do País e em ações. Mas o saldo final do balanço de pagamentos foi negativo em US$ 1 bilhão, em novembro, e em US$ 3,1 bilhões, neste ano. Em 2012, o saldo foi positivo em US$ 18,9 bilhões. Para manter as reservas em US$ 376 bilhões (no dia 16 eram de US$ 375,9 bilhões), o governo tem de emitir dívida interna a custo elevado e comprar dólares.
A situação de fragilidade cambial não tende a mudar neste mês nem em 2014, quando o BC estima um déficit corrente de US$ 78 bilhões e o setor privado, de US$ 81,5 bilhões.
De fato, o enfraquecimento cambial não é inevitável nem se deve antecipar uma crise no horizonte próximo. Mas seria prudente reduzir o déficit corrente, melhorando a gestão fiscal, tornando o País mais atraente para o investidor externo e exportando mais. Algo improvável, segundo a associação dos exportadores (AEB), que prevê, em 2014, exportações menores do que em 2013.