sexta-feira, dezembro 20, 2013

Maduro pede trégua e ouve críticas pesadas em 1ª reunião com opositores

Janaína Figueiredo, O Globo 
Com Agências Internacionais

Pressionado pela crise econômica, presidente venezuelano teve encontro com prefeitos e governadores que não integram comando chavista

FRANCISCO BATISTA / AFP 
Maduro em reunião com prefeitos e governadores que não integram comando chavista 

BUENOS AIRES — Acostumado a atacar e mandar recados aos rivais em seus discursos ou através das redes sociais, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acabou forçado a conversar diretamente com seus opositores. Sob pressão da crise econômica que assola o país, ele convocou, pela primeira vez, uma inusitada reunião no Palácio Miraflores com prefeitos e governadores que não integram o comando chavista. Foram mais de cinco horas de encontro durante as quais Maduro foi bombardeado por críticas sobre a inflação, o desabastecimento de produtos e os abusos de poderes dos governistas. O gesto foi interpretado como um esforço de aproximação, mas também de sobrevivência. Pouco antes, Maduro anunciou a intenção de subir o preço da gasolina, uma das várias medidas impopulares que terá de tomar para contornar a crise financeira.

O encontro reuniu conhecidos rivais dos chavistas, como o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma - reeleito no pleito do dia 8 - , a quem Maduro já se referiu diversas vezes como “vampiro”, e o prefeito de Valencia, Miguel Cocchiola, já chamado de “ladrão” e “delinquente” por ele. O principal inimigo do presidente venezuelano, Henrique Capriles, não compareceu. O líder opositor, que perdeu as eleições presidenciais de abril para Maduro por 1,49% de diferença, disse que não se opunha ao diálogo, mas que achava que o governo estava “impondo as condições” do debate.

- A reunião foi uma espécie de catarse e um acontecimento favorável para o governo, que passou a ser reconhecido por uma parte dos opositores. Essa jogada do governo foi considerada um passo prévio a tentar comprometer a oposição e compartilhar o custo de uma macro desvalorização de medidas econômicas restritivas que seriam adotadas nos próximos dias - disse Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV) e da Universidade Simón Bolívar.

Maduro distribuiu textos de Chávez e reproduziu uma gravação do presidente morto em março cantando o hino nacional. Mas também reconheceu o direito dos opositores de buscar as assinaturas necessárias - quatro milhões - para um referendo que pode tirá-lo do poder em 2016, quando chegará à metade de seu mandato.

- Em 2016, vocês terão sua oportunidade de me tirar da Presidência, de reunir as assinaturas - disse.

O encontro foi transmitido ao vivo pela TV local, que mostrou os opositores sentados, inexpressivos, durante o discurso inicial de Maduro. Depois, vieram as críticas à inflação galopante de 54%, à escassez de produtos básicos e às falhas nos serviços públicos, principalmente no setor elétrico.

- O governo não pode pedir sacrifícios ao povo sem explicar o que aconteceu com os bilhões de dólares perdidos pelo país ou por que deram de presente nosso petróleo para países amigos. Fomos sinceros, não é momento para poses, para posturas falsas, e sim para falar com sinceridade - contou Ledezma ao GLOBO.
Outra reclamação recorrente foi a nomeação, pelo governo, de cargos de “protetores” alternativos e órgãos que recebem recursos estatais em áreas controladas pela oposição. Derrotado por Ledezma no dia 8, o chavista Ernesto Villegas acaba de ser nomeado para um posto de “transformação revolucionária” da capital.

- Tentativas de aproximação e abertura são sempre bem-vindas, mas ainda é cedo para avaliar se essa ação conciliadora é séria e real - pontuou o analista político Luis Vicente León.

Enquanto a economia ameaça o governo em 2014, a oposição terá de lidar com uma crise de identidade. A ofensiva econômica adotada por Maduro semanas antes das eleições garantiu aos governistas o controle da maioria das prefeituras, e um desempenho abaixo do esperado para os opositores.

- O governo entendeu que deve reconhecer esta metade do país, que não pensa como ele. A escalada de ataques aumenta as divisões. Não somos tão inocentes, mas também não quero ser irracionalmente pessimista. O que vale é ter esperanças de que os problemas podem ser superados. Será criada uma comissão para avaliar as conclusões do encontro, com representantes do governo e da oposição. Esse é o próximo passo - disse Ledezma.