segunda-feira, dezembro 18, 2006

Acaju é ideologia?

Por Tutty Vasques, publicado no Blog NoMínimo
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Lula não deve explicação a ninguém a não ser, talvez, aos carecas que se sentirem excluídos. Se a tese do presidente sobre ideologia capilar estiver certa, se de fato os homens de esquerda tornam-se de direita à medida que seus cabelos vão embranquecendo, como situar historicamente na política quem não chegou a ficar grisalho por absoluta falta de pêlos para clarear sobre a testa?
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No mais, acho que o presidente está certo: metade dos meus amigos foram deixando de ser de esquerda ao primeiro sinal de cabelos brancos na fronte. A outra metade ou é careca como o Arthur Dapieve ou pinta descaradamente os cabelos feito Gerald Thomas. Tem também os carecas que pintam, como Joaquim Ferreira dos Santos e Arnaldo Jabor, desses não faço a menor idéia de que lado estão, depende muito da quantidade de livros que vendem.
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Sei que é complicado tirar os carecas de circulação, mas não seria de todo absurdo proibir a fabricação, a comercialização e o uso de tinturas para cabelos. Ficaria muito mais fácil saber logo de cara qual é a do cara. No caso do Lula, por exemplo, a gente vê que restam ainda alguns fios pretos na sopa do Fome Zero, mas, à exceção de uns e outros do PT e do PSOL, todo mundo pinta o cabelo no Congresso. Político é que nem loura – repara só! –, tem uma vergonha danada de mostrar o que de fato é. A propósito, louras são de direita? Vai ver depende da tintura, né?
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Outra coisa: acaju é ideologia? Se for, José Agripino Maia é lider da bancada acaju no parlamento – ô, raça! Pela teoria político-capilar de Lula, o Ziraldo, bem, melhor não arrumar encrenca com o Ziraldo...! Digamos que o Walmor Chagas seria líder da extrema direita no congresso.
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Patrulhado pelas bobagens que disse sobre seu amadurecimento – “Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ela tem problemas” – Lula reclamou da falta de humor de quem ainda lhe dá ouvidos. “Fiz uma brincadeira, pô.”
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É por aí, presidente! Podia inclusive ter enriquecido sua piada falando um pouco sobre a influência de Marta Suplicy no legado das louras na política brasileira. Outra coisa, lembra da primeira micro-mecha de fios brancos que pintou na fronte de William Bonner na bancada do “Jornal Nacional”? Chegou-se a dizer na época que aquilo era fake, exigência da direção da emissora para dar um toque de seriedade no jornalista. Na época, salvo engano, ele ainda votava no Lula. Hoje, Bonner está daquele jeito, já quase totalmente grisalho, pai de três filhos, rico, carro blindado...
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Se Lula só estava a fim de brincar, palmas, de novo, para a cabeleireira de Miriam Leitão, que pode até de vez em quando errar na forma dos penteados, mas jamais deixou dúvidas de que sob a tintura dos caracóis da jornalista ela está cada vez menos grisalha do que o presidente.
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No fundo, no fundo, a questão de estar mais à direita ou à esquerda não tem a menor importância nos dias de hoje, assim como não são mais ou menos maduros os parlamentares que dobraram seus próprios salários para a próxima legislatura. Não há tintura que disfarce o problema de quem perdeu a vergonha, ainda que continue sendo de esquerda.