Por Ana Maria Tahan
Em "Coisas da Política", no Jornal do Brasil
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Joana mora em Campo Grande, a duas horas e meia de distância, ida e volta, do Leme, Zona Sul do Rio. Ganha o salário mínimo pelo esforço de ir e vir para a faxina e as lidas domésticas no apartamento de três dormitórios e cinco moradores. Acrescenta à renda mensal mais R$ 200 pelos cuidados com o conjugado de um solteirão, tarefa que a ocupa na hora em que deveria estar descansando. Mora numa casa de 45 metros quadrados, paga em prestações que se estenderam por 25 anos. Ajuda a encher a despensa e a vestir a família do filho único, dependente do dinheiro incerto obtido como "promotor" de uma marca de café solúvel.
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No país do mínimo, o dinheiro do suor de Joana se exaure antes dos 30 dias. Ela acompanha pelo rádio e, no fim do dia, quando consegue vencer o cansaço, pela TV, a negociação em torno do aumento do salário-base. Os nobres parlamentares decidiram ser mais generosos do que a administração Lula da Silva com o trabalhador. Aprovaram elevação de R$ 25. O Ministério da Fazenda, que analisa números e não decifra seres humanos, prefere R$ 17.
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Definir Joana como raivosa, ou indignada, ontem, é eufemismo de diplomata. Um palavrão traduziria com nitidez o estado de espírito que lhe incutiram deputados e senadores. E o governo, por tabela. Noventa e um por cento de adicional, R$ 12 mil a mais por mês. O Congresso foi generoso no presente de Natal. As Mesas da Câmara e do Senado e o Colégio de Líderes de ambas as Casas formalizaram a Aliança Parlamentar pelo Dobro. Institucionalizaram o mensalão. O adicional é permanente. Outros incidirão no futuro. Uma alegria só. O champagne jorrará com fartura no ano novo político.
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"Não é aumento, é subsídio", tergiversou o líder do PFL na Câmara, deputado Rodrigo Maia, crítico impenitente dos gastos públicos, defensor de lacerações profundas nas despesas governamentais. Camaradas há décadas, inimigos íntimos enquanto disputam o comando da Casa dos deputados, Aldo Rebelo, do PC do B, e Arlindo Chinaglia, do PT, cravaram sem pudor os votos decisivos à proposta, de olho na conquista de apoios decisivos na batalha marcada para fevereiro de 2007.
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Renan Calheiros expressou também o seu "sim", mas driblou interpelações constrangedoras com uma frase de ruborizar corações e mentes: "O importante é que haja transparência". O líder dos comunistas do B, Inácio Arruda, somou-se ao grupo em nome da isonomia salarial com os ministros do Supremo Tribunal Federal - que já querem acrescer os seus ganhos. E, ironia da História, o líder do PDT, deputado Miro Teixeira, um dos primeiros a denunciar o mensalão, estava lá na hora de formalizar a mesada que equipara parlamentares tupiniquins a príncipes sauditas.
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Com a honrosa exceção da senadora Heloísa Helena e do deputado Chico Alencar, ambos do PSOL, e do petista Henrique Fontana, contrários à gastança às custas dos contribuintes, o encontro entrará para os anais como o primeiro caso de coalizão partidária do Parlamento brasileiro. A afinação aproximou políticos de origens e ideologias tão díspares quanto Ciro Nogueira, do PP, e Colbert Martins, do PPS. Garantiu 10 minutos de fama a Givaldo Carimbão, digno representante do PSB de Alagoas. Reentronizou Inocêncio Oliveira. Engrossou o prontuário de Sandro Mabel, inocentado por seus pares no escândalo do mensalão. E permitiu a Ney Suassuna, recém-absolvido pelos colegas dos pecados sanguessugas, agradecer a solidariedade e despedir-se do Senado como um benfeitor da conta bancária dos parceiros pelos próximos anos. A atual leva de deputados e senadores descobriu a força do "unidos, venceremos". Mais ricos, deixam mais pobres aqueles que os elegeram.
Em "Coisas da Política", no Jornal do Brasil
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Joana mora em Campo Grande, a duas horas e meia de distância, ida e volta, do Leme, Zona Sul do Rio. Ganha o salário mínimo pelo esforço de ir e vir para a faxina e as lidas domésticas no apartamento de três dormitórios e cinco moradores. Acrescenta à renda mensal mais R$ 200 pelos cuidados com o conjugado de um solteirão, tarefa que a ocupa na hora em que deveria estar descansando. Mora numa casa de 45 metros quadrados, paga em prestações que se estenderam por 25 anos. Ajuda a encher a despensa e a vestir a família do filho único, dependente do dinheiro incerto obtido como "promotor" de uma marca de café solúvel.
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No país do mínimo, o dinheiro do suor de Joana se exaure antes dos 30 dias. Ela acompanha pelo rádio e, no fim do dia, quando consegue vencer o cansaço, pela TV, a negociação em torno do aumento do salário-base. Os nobres parlamentares decidiram ser mais generosos do que a administração Lula da Silva com o trabalhador. Aprovaram elevação de R$ 25. O Ministério da Fazenda, que analisa números e não decifra seres humanos, prefere R$ 17.
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Definir Joana como raivosa, ou indignada, ontem, é eufemismo de diplomata. Um palavrão traduziria com nitidez o estado de espírito que lhe incutiram deputados e senadores. E o governo, por tabela. Noventa e um por cento de adicional, R$ 12 mil a mais por mês. O Congresso foi generoso no presente de Natal. As Mesas da Câmara e do Senado e o Colégio de Líderes de ambas as Casas formalizaram a Aliança Parlamentar pelo Dobro. Institucionalizaram o mensalão. O adicional é permanente. Outros incidirão no futuro. Uma alegria só. O champagne jorrará com fartura no ano novo político.
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"Não é aumento, é subsídio", tergiversou o líder do PFL na Câmara, deputado Rodrigo Maia, crítico impenitente dos gastos públicos, defensor de lacerações profundas nas despesas governamentais. Camaradas há décadas, inimigos íntimos enquanto disputam o comando da Casa dos deputados, Aldo Rebelo, do PC do B, e Arlindo Chinaglia, do PT, cravaram sem pudor os votos decisivos à proposta, de olho na conquista de apoios decisivos na batalha marcada para fevereiro de 2007.
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Renan Calheiros expressou também o seu "sim", mas driblou interpelações constrangedoras com uma frase de ruborizar corações e mentes: "O importante é que haja transparência". O líder dos comunistas do B, Inácio Arruda, somou-se ao grupo em nome da isonomia salarial com os ministros do Supremo Tribunal Federal - que já querem acrescer os seus ganhos. E, ironia da História, o líder do PDT, deputado Miro Teixeira, um dos primeiros a denunciar o mensalão, estava lá na hora de formalizar a mesada que equipara parlamentares tupiniquins a príncipes sauditas.
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Com a honrosa exceção da senadora Heloísa Helena e do deputado Chico Alencar, ambos do PSOL, e do petista Henrique Fontana, contrários à gastança às custas dos contribuintes, o encontro entrará para os anais como o primeiro caso de coalizão partidária do Parlamento brasileiro. A afinação aproximou políticos de origens e ideologias tão díspares quanto Ciro Nogueira, do PP, e Colbert Martins, do PPS. Garantiu 10 minutos de fama a Givaldo Carimbão, digno representante do PSB de Alagoas. Reentronizou Inocêncio Oliveira. Engrossou o prontuário de Sandro Mabel, inocentado por seus pares no escândalo do mensalão. E permitiu a Ney Suassuna, recém-absolvido pelos colegas dos pecados sanguessugas, agradecer a solidariedade e despedir-se do Senado como um benfeitor da conta bancária dos parceiros pelos próximos anos. A atual leva de deputados e senadores descobriu a força do "unidos, venceremos". Mais ricos, deixam mais pobres aqueles que os elegeram.