segunda-feira, dezembro 18, 2006

A democracia está de luto

Editorial Jornal do Brasil
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Consumado o saque, embolsado o butim, a súcia se dividiu: alguns se acovardaram, enquanto outros exercitaram as caras-de-pau, tentando explicar o inexplicável.
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A história da democracia brasileira, de tantas e memoráveis conquistas, ganhou um contraponto infame na última quinta-feira, quando as presidências da Câmara e do Senado, juntamente com lideranças de quase todos os partidos, decidiram dobrar os salários dos parlamentares, sem justificativa plausível além da ganância e da falta de pudor.
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O dia 14 de dezembro de 2006 ficará na história como aquele em que o Congresso, de maneira arrogante e antidemocrática, desferiu um tapa na face da nação brasileira, mandou às favas a decência e agarrou-se, com unhas e dentes, àquele que parece ser o único valor realmente importante para a maioria dos congressistas: o dinheiro.
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Consumado o saque, embolsado o butim, a súcia se dividiu: alguns se acovardaram, preferindo evitar declarações, enquanto outros exercitaram as caras-de-pau, tentando explicar o inexplicável. Não é salário, é subsídio, onde (sic) as pessoas têm que ter uma condição, uma boa condição, para exercer o seu mandato parlamentar, disse o líder do PFL na Câmara, Rodrigo Maia, assassinando, de quebra, a última flor do Lácio.
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Mas a pérola mais contundente partiu do deputado José Múcio Monteiro, líder do PTB na Câmara. Tem que se procurar um número valor que não desestimule os sérios a continuar na vida pública, sentenciou.
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A frase, de rara infelicidade, é um riso de escárnio para aqueles que, ao contrário do deputado, não podem estipular os próprios vencimentos e, por viverem no mundo real, não ousam ganhar nem a décima parte do que ganha o parlamentar em sua ilha da fantasia.
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Pela lógica do deputado, não são sérios, talvez, os bombeiros, os jornalistas, os professores, os motoristas, os varredores de rua. Não são sérios os médicos, nem os policiais. Talvez, para José Múcio e sua turma, não seja sério nem mesmo o cidadão Francisco Basílio Cavalcante, faxineiro de Brasília que achou 10 mil dólares e devolveu para o dono. O gesto de seu Chico inspirou uma campanha nacional que dizia: O melhor do Brasil é o brasileiro. Há dois anos, quando o fato aconteceu, aquele trabalhador ganhava brutos R$ 370,00. Não deve ser sério.
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Se existe um lado positivo no aumento autoconcedido pelos parlamentares, é o fato de ter sacudido uma nação já meio anestesiada pelas infâmias cometidas em Brasília. Ontem, em pleno rescaldo do achaque, em vez de desânimo o que se viu foi disposição para a luta. De norte a sul do Brasil, a imprensa ecoou a indignação dos brasileiros diante de mais este desmando, com um grito uníssono. A sociedade organizada começou a preparar um contra-ataque, argüindo a ilegalidade do aumento e condenando o despudor. CNBB, OAB e outras siglas gratas, que estiveram à frente dos avanços sociais nas últimas décadas, mais uma vez empunharam o estandarte da ética e da justiça, denunciando a armação.
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Novas batalhas se anunciam, também, no âmbito dos Estados e Municípios, para tentar impedir que os deputados estaduais e vereadores sigam o exemplo deplorável de Brasília, e reajustem seus salários tendo como referência os subsídios dos deputados federais e senadores. Em Sorocaba, uma sutil manobra dos vereadores já abriu caminho para o aumento, como denunciou este jornal em sua edição de 7/12.
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Diante de tantos exemplos ruins, está mais do que na hora de a sociedade organizada abandonar a letargia e iniciar, por todos os meios legais e possíveis, um grande movimento popular pela ética e moralidade na política.
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Sem isso, seremos eternamente achacados por piratas e corsários, que vêem na política apenas um caminho rápido para a riqueza e não se importam se, para chegar lá, terão que trair o povo ou pisar na democracia.