segunda-feira, dezembro 18, 2006

A cusparada

Por Fabio Grecchi, na Tribuna de Imprensa
.
Na segunda-feira, os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ), Fernando Gabeira (PV-RJ), Raul Jungmann (PPS-PE) e a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) entram no Supremo Tribunal Federal com uma ação de inconstitucionalidade contra o aumento que os congressistas se auto-concederam. Espera-se que mais parlamentares se juntem à indignação que, por enquanto, é apenas de quatro integrantes do Legislativo. Mas que certamente espelham a irritação da sociedade com a capacidade que os políticos têm de se presentear.
.
A gravidade da manobra se potencializa quando se ouve falar que por trás de tudo já está a luta pelos votos que dêem a Renan Calheiros (PMDB-AL) e Aldo Rebelo (PC do B-SP) a reeleição como presidentes de Senado e Câmara, respectivamente. E fica ainda pior quando se percebe a mão semivisível do Palácio do Planalto, que deseja a reeleição de ambos. O fato de Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do partido na Câmara, ter concordado com o super-reajuste, é porque também favorece sua candidatura contra Aldo. Afinal, pode alardear para o baixo clero que esteve a favor da engorda dos salários de seus pares.
.
A esperança dos quatro parlamentares é que o STF diga não da mesma maneira que disse ao aumento dos vencimentos do Ministério Público. Mais até: que a ação deles expresse o desprezo que a sociedade sente pelo gesto. Num momento em que as categorias profissionais recebem, quando muito, a reposição da inflação do período - os metalúrgicos da Volkswagen, meses atrás, não tiveram nem o que pleitear, devido à iminência de fechamento da planta de São José dos Campos (SP) -, obter um reajuste de 91% tem o mesmo impacto de uma cusparada no rosto.
.
E no dito mundo globalizado, cantado em verso e prosa como o encaminhamento do capitalismo rumo ao futuro, não há profissional que receba aumento nesta proporção. Nem o Ronaldinho Gaúcho.
.
E olhem que pelo menos ele, com a intimidade que tem com a bola, merece tudo o que põe no bolso.