segunda-feira, dezembro 18, 2006

Previsões para 2007

Por Ricardo Setti, para NoMínimo
.
Jornalista não é, nem deve ser, astrólogo. E fazer previsões é especialmente arriscado no Brasil, sempre capaz de ir da glória delirante ao abismo da depressão em velocidade recorde. Basta lembrar, em anos recentes, a campanha das diretas-já, a eleição de Tancredo Neves e sua morte sem tomar posse, o Plano Cruzado e o desastre que se seguiu, a “novidade” Fernando Collor que acabou como se sabe, a expectativa frustrada de remodelação dos costumes políticos suscitada pela chegada de FHC ao poder, eleição de Lula e a brutal carga de esperança, vã, que despertou em grande parte da população – e por aí vai.
.
Mesmo assim, boa parte dos problemas políticos e das chamadas questões nacionais – algumas se arrastando desde os primórdios da República – permitem, sim, um prognóstico de Ano Novo. Embora correndo riscos, portanto, o signatário considera que, em 2007, vai muito provavelmente acontecer o que se segue com os temas listados:
.
*. Ajuste fiscal: o economista, ex-czar da economia e deputado neolulista Delfim Netto (PMDB-SP) vem há tempos batendo na tecla de que está em curso uma assustadora conta que não fecha na economia: o PIB do país cresce em média 2,4% ao ano (tomando 1993-1994 como base), enquanto as despesas de custeio do governo federal disparam a um ritmo de 6%. Economia nenhuma no planeta suporta essa loucura. Previsão: pouco ou nada vai mudar da tendência em 2007, apesar da conversalhada a respeito no seio do governo. Os “desenvolvimentistas” do governo vão dizer – como sustentou Lula na campanha eleitoral – que fazer cortes significa cortar na área social. Empurra-se tudo com a barriga, e vamos ver o que acontece.
*. Base aliada: as bancadas que supostamente apóiam o governo no Congresso, depois de cobrarem alto preço por isso – o último partido a subir no bonde, ontem, quarta-feira, acaba de ser o ex-adversário PDT –, vão continuar dando constantes sustos no Planalto. Aliás, foi o que fizeram na semana passada, ainda com o Congresso “velho”, em fim de mandato, ao permitirem, por desleixo, que o deputado petista não reeleito Paulo Delgado (MG) fosse preterido em favor do deputado igualmente não reeleito Aroldo Cedraz (PFL-BA), homem de ACM, para o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU)..* Banco Central: seja quem for o presidente – Henrique Meirelles, o atual, como se prevê, ou outra personalidade –, e seja qual for a velocidade em que promover, via Conselho de Política Monetária, a baixa dos juros, será malvisto e criticado pela maior parte da bancada do PT, pela CUT, pela Força Sindical, pelo MST, pela Fiesp e pelo vice-presidente José Alencar, e levará a culpa pelo baixo crescimento do país. Pouca, pouquíssima gente reconhecerá seu papel no combate, bem sucedido, à inflação. O conteúdo deste item (Banco Central) pode-se aplicar também a juros e ao superávit primário.

*. Congresso Nacional: mesmo renovado em 40% nas eleições de outubro, deve manter o padrão de absolver a maior parte de seus integrantes suspeitos de maracutaias. Não vai moralizar gastos excessivos de parlamentares, nem o escândalo de funcionários que recebem da Câmara e do Senado e não aparecem em Brasília. As CPIs que não derem em pizza serão as de importância secundária.
*. Crescimento: a cifra que vier a apresentar estará invariavelmente abaixo dos desejos de boa parte da sociedade e, sobretudo, das promessas do governo.
*. Justiça: apesar da justeza da reforma empreendida este ano, com o estabelecimento da súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal (STF) – que obrigará as instâncias inferiores a decidirem conforme entendimento consolidado do tribunal em determinada causas –, apesar da promissora criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão fiscalizador que tem mostrado precisar ele próprio ser fiscalizado, continuará lenta e injusta. E fazendo enriquecer advogados especialistas em protelar decisões. O governo, como sempre, estará colaborando para esse cenário, ao recorrer em todas as instâncias toda vez que perde uma causa envolvendo dinheiro, por mais ralas que sejam suas razões.
*. Oposição: fará muito barulho em eventuais CPIs e fingirá estar unidíssima – quando, na verdade, só o PSDB tem pelo menos quatro alas diferentes, que se alfinetam e olham com desconfiança.
*. Polícia Federal: continuará fazendo operações espetaculares e colocando algemas em alguns figurões. Depois, todos serão soltos pela Justiça, aguardando em liberdade julgamentos que só Deus sabe quanto vão demorar.
.
Enquanto isso, sobrecarregada – pois combate de maracutaias de homens públicos a pornografia infantil, de tráfico de drogas e armas a crimes fiscais –, com menos gente do que precisaria ter e menos dinheiro do que o superávit primário permite que tenha, continuará com falta de gasolina para uma operação aqui, sem viaturas para uma operação ali e dividida em várias facções políticas. Para a propaganda oficial, tudo o que fizer de bom será mérito do governo Lula, e não da corporação. Os abusos que praticar contra os direitos dos cidadãos, como não raro acontece, passarão em branco.
*. Política externa: o presidente Lula continuará tendo idéias e fazendo viagens improdutivas, como a que empreendida recentemente a Abuja, na Nigéria, para a tal “Cúpula África-América do Sul” por ele concebida Lula, e à qual 41 dos 66 chefes de Estado convidados não se deram ao trabalho de comparecer. Prosseguiremos engolindo alguns desaforos, como os do presidente Evo Morales – auto-proclamado “irmão” de Lula –, que humilhou a Petrobras colocando tropas em suas refinarias na Bolívia e está fazendo a estatal deglutir gigantesco aumento de preço no gás que fornece ao Brasil, entre outros sapos.
.
Além disso, o Brasil manterá sua postura vergonhosa de ficar em cima do muro quando se tratar de condenar, em fóruns internacionais, a violação de direitos humanos de países como China, Cuba e Sudão. Apesar da “amizade” de Lula com o presidente George W. Bush, o Itamaraty assestará, sempre que puder, novas caneladas nos Estados Unidos.
*. PMDB: guloso e voraz, o partido faltará a Lula no Congresso em momentos importantes, tenha o tamanho que tiver a fatia de poder que conseguirá abocanhar no novo Ministério e o número de gente que espalhará por dezenas de postos-chave pela máquina federal afora.
*. Reforma política: agora que o Supremo derrubou a cláusula de barreira, que visava acabar com os partidos de aluguel (acerto técnico-formal que levou desalento a quem ainda acredita no aprimoramento dos costumes políticos), só serão aprovados pelo Congresso, na melhor hipótese, penduricalhos sem importância. Nenhum dos temas-chave seguirá adiante, muito menos o mais importante: a correção da brutal distorção que faz com que os 60% da população do Sudeste e do Sul só tenham 40% da representação popular na Câmara dos Deputados.
*. Reforma da previdência: todo mundo continuará a favor, desde que só sejam cortados os benefícios alheios. De modo que os rombos, impávidos, prosseguirão minando as contas públicas.
*. Segurança pública: haverá profunda indignação a cada crime especialmente pavoroso (sobretudo se atingir gente do andar de cima) ou crise grave, seguida da costumeira indiferença dos poderes públicos ao que talvez seja o problema número 1 do Brasil – porque a impunidade é uma espécie de mãe de todos os males de um Estado de direito.
*. Tráfego aéreo: ainda teremos muita confusão em 2007. E todos vamos continuar sem saber o que aconteceu, afinal, em 2006.