segunda-feira, dezembro 18, 2006

Todo tirano viveu demais

Do Jornal do Brasil
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Como regra, a imprensa deve noticiar com sobriedade e circunspecção a morte de qualquer celebridade. Uma das exceções contempla quem não foi uma celebridade qualquer. É o caso de Augusto Pinochet. Poucos ditadores superaram em perversidade o tirano chileno. Poucos roubaram dinheiro público com tamanha gula. O Jornal do Brasil decidiu que a morte de alguém assim merecia tratamento especial.
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"Já vai tarde", resumiu a manchete do dia 11. Os editores deduziram que as três palavras traduziriam a sensação de alívio experimentada pela multidão de democratas que compõe a maioria dos leitores do JB. Acertaram. Não houve reações negativas ou manifestações de desconforto. Pinochet fora mesmo tarde.
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Alguns leitores quiseram saber se o tom do noticiário se repetirá quando o cubano Fidel Castro morrer. A resposta foi antecipada na mesma primeira página, num trecho da nota sobre o agravamento do estado de saúde de Fidel. "Ditaduras podem ter ideologias opostas, mas são sempre ditaduras". lembrou o redator.
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Para o JB, eventuais atenuantes devem ser registradas, mas serão sempre insuficientes para recomendar a absolvição de liberticidas. Na Era Pinochet, por exemplo, a economia chilena modernizou-se e se tornou a mais sólida do continente. Sob Fidel, Cuba livrou-se de numerosos tumores sociais. Nada disso justifica o horror como rotina.
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No Chile como em Cuba, os mesmos avanços econômicos e sociais poderiam ter ocorrido sem o assassinato da democracia. O JB repele, com convicção e veemência, a falácia segundo a qual regimes ditatoriais promovem mudanças com mais agilidade e eficácia.
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Fiel a conceitos enunciados ainda na infância, este jornal permanece convencido de que ameaças à democracia podem ser rechaçadas sem agressões ao estado de direito. Sem a entrada em cena de supostos salvadores da pátria. Nestes mais de 100 anos, incontáveis homens providenciais freqüentaram as páginas do JB. Todos estão mortos. O jornal já centenário esbanja saúde.
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Pinochet se foi aos 91 anos. Aos 80, Fidel enfim está indo. Também já vai tarde.