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O colapso aéreo brasileiro voltou a atingir altitudes tenebrosas. Enquanto os aeroportos do Rio e de São Paulo repetiram ontem a rotina de transtornos, atrasos e filas intermináveis, o restante do país alcançou uma marca espantosa: 34% dos vôos apresentaram problemas. Ou seja, um em cada três aviões programados para embarcar registrava atraso ou cancelamento. A gravíssima crise é uma só, mas os motivos mudam diariamente: da chamada operação padrão dos controladores ao mau tempo. Atravessam também a esperteza das companhias aéreas que, a fim de reduzir os monumentais prejuízos, atrasam o embarque até que as aeronaves saiam mais cheias ou cancelam os vôos deficitários.
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Eis a paisagem incorporada aos terminais por obra e graça de um governo sem rumo nem plano de vôo. O grave é que, não obstante o que se vê e se diz, as autoridades incumbidas de manter em funcionamento o sistema de transporte aéreo agem como se nada fosse responsabilidade delas. Desde o começo o governo vem reagindo às tontas. Atormentados com o calvário generalizado, os brasileiros assistem a um governo inerte, cuja paralisia se deve exclusivamente à incapacidade de agir administrativamente e pela ilusão de que a teatralidade substituirá a competência. Engano.
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Tragédia repetida, o JB não hesita em cobrar mais uma vez: é hora de demitir os incompetentes - a começar pelo ministro da Defesa, Waldir Pires, pelo comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno. Mas o presidente Lula só se tornará menos impopular no universo dos passageiros se puser em prática um plano factível para desobstruir as trilhas aéreas, bloqueadas pela rebelião dos controladores e pelo sucateamento do setor. Uma boa pista foi oferecida ontem com a divulgação do relatório da comissão especial do Congresso criada para investigar as raízes da crise. Há um problema gerencial e administrativo a solucionar.
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Estão dispensados, portanto, os habituais diversionismos protagonizados pelo presidente e assessores. Palácio do Planalto seguiu até aqui a rota de praxe traçada em momentos de crise: manter Lula na retaguarda, a fim de evitar estragos à imagem pessoal do presidente. É uma opção danosa demais ao país. Por mais que atribua o colapso nos aeroportos à responsabilidade da Aeronáutica, à leniência do ministro da Defesa, ao despreparo das companhias aéreas, trata-se de um problema de gerência em que o responsável último é o administrador-mor. Foi eleito para tanto.
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Embora liberado das viagens a bordo de aviões comuns, Lula sabe que os ares brasileiros foram à matroca. Não tardará a aprender que será impossível moldar a realidade às suas conveniências políticas. Se não pelo calvário imposto aos passageiros, a lição virá pela operação tartaruga especial que está sendo cogitada pelos controladores de vôo para ser deflagrada nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. O objetivo - não declarado, mas inequívoco - é arruinar a cerimônia de posse do presidente. Tentarão chegar à capital deputados, senadores, empresários, funcionários e representantes dos movimentos sociais convidados para as cerimônias.
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Eis o resultado da lambança governamental: ou o presidente assistirá a novos transtornos no dia da própria posse ou, havendo medidas de emergência, receberá a indignação dos passageiros que há dois meses têm seu martírio tratado com indiferença. Ou Lula veste o figurino da responsabilidade ou iniciará o segundo mandato sob a marca da inoperância, condição da qual não se livrará a tempo de ingressar pela porta da frente da História.