sexta-feira, dezembro 29, 2006

Pobreza S.A.

Por Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo
.
Até outro dia o Brasil tinha dezenas de milhões de famintos. Daí nasceu o discurso vitorioso de Lula do Fome Zero. A descoberta de que os dados sobre nutrição estavam errados, e de que a parcela da população com carência alimentar estava dentro da faixa considerada normal pela ONU, foi uma boa notícia. A má notícia foi o tempo perdido com a retórica populista.
.
Agora o Brasil comemora o crescimento da renda entre os mais pobres, entre 2001 e 2005 – um crescimento superior ao das outras classes. Enfim, a justiça social!
.
É incrível como os brasileiros são sensíveis aos contos de fadas. Esses dados sobre renda, como se sabe, valem tanto quanto um cheque do Banco Santos. São declarações espontâneas em que o pesquisado diz o que lhe dá na telha – diferente do que seria uma aferição pelo lado do consumo e dos bens, certamente mais precisa.
.
Às vezes a medição da renda pode refletir um aquecimento da economia. Às vezes pode refletir um estado de espírito. Quando os governos (o passado e o atual) começam a distribuir dinheiro das bolsas Escola, Família e etc, espalha-se por um certo universo um clima de “agora melhorou”, e esse clima vira um percentual lá na ponta, sabe Deus como.
.
O mais cruel é que esses programas assistenciais, como fartamente demonstrado, falham seriamente em atingir o público pretendido. São pouco fiscalizados e ficam à mercê de cadastros manobrados por prefeituras e líderes locais. Mas são suficientes para empurrar as estatísticas de renda para cima.
.
Forma-se, assim, o mundo encantado do assistencialismo: as bolsas escola/família “melhoram” os indicadores entre os mais pobres, e depois são usadas para explicar essa melhoria. É como agradecer ao Duda Mendonça (e seu Fome Zero) por acabar com a desnutrição no Brasil.
.
Assim é, se lhe parece. Com um pouco mais de imaginação, logo estaremos comemorando o hexacampeonato na Copa da Alemanha.