sexta-feira, dezembro 29, 2006

Lula, a verdade reciclada e Mercadante, o boi (gordo) de piranha

Por Reinaldo Azevedo
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Como acontece em toda antevéspera de Natal, Lula participou de uma solenidade em companhia do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis). Tudo ali se recicla. Quando Lula chega, a verdade também ganha novas utilidades. Vejam o que disse o chefe da nação sobre o indiciamento do senador Aloizio Mercadante (PT-SP) no caso do dossiê dos aloprados: “Eu acredito piamente na inocência do companheiro Aloizio Mercadante. Eu não consigo compreender como que os delegados encontraram uma forma de incluir o Aloizio Mercadante, mas estou convencido de que ele é tão inocente como qualquer um de vocês neste episódio."
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Ora, claro que sim. Na verdade, estamos falando de um crime sem culpados. Observem que o Babalorixá não livra a cara dos demais, dos peixes pequenos. Vai ver tudo não passou de uma trama urdida por, sei lá... Gedimar Passos? Hamilton Lacerda? Há uma boa chance de que Mercadante tenha sido “incluído” porque o homem da mala preta era seu assessor pessoal e porque a polícia concluiu que o dinheiro vinha da caixa dois de sua campanha. É claro que, para os padrões do petismo, isso ainda é muito pouco.
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Mas atenção: até aqui, estou apenas desconstruindo o discurso oficial de Lula. Sua defesa de Mercadante é tão sincera quanto uma nota de R$ 3. O senador está furioso porque sabe que foi escolhido para ser queimado. O processo segue para o STF. E tende a não dar em nada. Mas fica a mácula política. Alguém tinha de arcar com isso. Como se tratou de uma operação conjunta entre aloprados federais e aloprados estaduais, o lucro do golpe eleitoral seria dividido: Mercadante poderia ter alguma chance em São Paulo, e Lula iniciaria o governo com a oposição desmoralizada.
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Deu tudo errado. Sobrou o custo político para Mercadante. Observem que as pegadas federais não tiveram a menor importância para a PF. O único petista ligeiramente ligado a Lula que foi indiciado é Gedimar Passos. Ricardo Berzoini, Jorge Lorenzetti, Expedito Velloso, Freud Godoy, Osvaldo Bargas... Sumiram todos. Com o ex-policial federal não havia o que fazer. Foi pego com a mão na bufunfa. O mesmo vale para Valdebran Padilha, também preso em flagrante. Os “empresários” que venderam os dólares dançaram. Os outros todos são ligados à campanha de Mercadante, que também não escapou.
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Quem conhece o senador e aquele ego em busca de um gigante que o abrigue pode imaginar como ele está se sentindo em ser boi de piranha. Foi usado como fusível para o curto-circuito não chegar a Lula. Obra de um exímio esquartejador de escândalos — sempre a favor do Babalorixá — chamado Márcio Thomaz Bastos. Não convidem o senador e o ministro da Justiça para a mesma ceia de Natal.
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O núcleo duro do lulismo acaba de dizer para Mercadante: “Você jamais será um de nós. Vire-se”. Duvido que, do ponto de vista criminal, o imbróglio resulte em alguma coisa. Mas o senador está politicamente queimado. O indiciamento passa a integrar a sua biografia e será sempre lembrado. A começar por seus adversários petistas em São Paulo. Feliz Natal, Marta Suplicy!