sexta-feira, dezembro 29, 2006

Sem transigência com o terror

Editorial Jornal do Brasil
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O recado não tardaria a chegar. O sombrio espetáculo de pavor e morte a que se assistiu nas últimas horas, no Rio de Janeiro, revela a emissão de duas mensagens intoleráveis das organizações criminosas: um réquiem para a governadora Rosinha Garotinho e a exibição do temeroso arsenal de "boas-vindas" dos bandidos ao governador eleito, Sérgio Cabral. Enquanto Rosinha se despede na segunda-feira do Palácio Guanabara com a marca da derrota em várias frentes de batalha na segurança pública, Cabral tem demonstrado que está disposto a iniciar a desejada contra-ofensiva. Lamente-se que, no hiato entre um e outro, haja um preço alto demais a ser pago pelos cariocas.
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Como todos os gestos protagonizados por terroristas, o sinal foi emitido às autoridades destinatárias à custa do medo, da destruição e do encarceramento imposto a cidadãos inocentes. Depois dos ataques simultâneos em vários pontos da cidade, ocorridos na madrugada e na manhã, no início da tarde contabilizavam-se 18 mortos e mais de 20 feridos - o resultado de ônibus queimados, cabines da Polícia Militar metralhadas, delegacias atingidas. Confirma-se o poder dos criminosos diante de um governo zonzo e de uma polícia incapaz. Dispensável lembrar as semelhanças entre a tragédia desta quinta-feira e os terríveis ataques de maio em São Paulo, quando o Primeiro Comando da Capital impôs aos paulistanos o toque de recolher e atingiu, também de maneira simultânea, alvos civis e públicos espalhados pela capital.
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Como em São Paulo, os bandidos do Rio recorrem ao terror para negociar com as autoridades concessões e privilégios. Já há algum tempo as organizações criminosas descobriram o poder que têm para desafiar governos, fazer exigências e transformar cidades em barril de pólvora. À essa altura, é inútil o secretário estadual de segurança, Roberto Precioso, pedir tranqüilidade à população.
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Prevalece a crescente e insustentável percepção de insegurança e desamparo. Os cariocas se mostram amedrontados porque sabem que, neste terreno, o Rio está em frangalhos. O último mês, em especial, foi crivado de notícias gravíssimas - de ataques a turistas ao assassinato de uma empresária, do assalto à presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, e ao vice, Gilmar Mendes, às denúncias de envolvimento da cúpula da polícia com o crime organizado. São evidências de que a guerra ultrapassou todas as fronteiras toleráveis.
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Noticiou-se que os bandidos estariam preocupados com a mudança do governo fluminense e eventuais alterações na administração penitenciária. Que estejam. Como esta página já sublinhou, caberá ao futuro governador comandar o processo de eliminação da perplexidade carioca. As feridas existentes não cicatrizarão da noite para o dia, mas é possível dar alguns passos gigantescos, como uma ação mais coordenada entre as polícias Civil e Militar, melhor planejamento das operações, a recuperação da inteligência policial, o maior rigor nos presídios e eliminação das raízes criminosas instaladas no aparato do Estado.
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Apesar do pavor, os prognósticos são alentadores, sobretudo pela nova trinca de comando da segurança pública, indicada por Cabral: tanto o futuro secretário, José Mariano Beltrame, quanto os chefes das polícias Civil, Gilberto da Cruz Ribeiro, e Militar, Ubiratan de Oliveira Ângelo, exibem um notável currículo. Reconhecem a insustentabilidade de uma política de segurança com uma polícia suja e sem força. Não poderão temer ameaças de bandidos. Se responderem à altura e rapidamente, sem transigências, as afrontas cessarão.