quarta-feira, dezembro 27, 2006

Como educar os jovens?

Raquel Stivelman, escritora, Jornal do Brasil
.
Educação é, sobretudo, transmissão de conhecimentos, de valores, de atitudes éticas, de atualização de novos conhecimentos neste nosso mundo tão mutante e acelerado de hoje. A família e a escola têm papéis predominantes nesta tarefa que hoje pode ser considerada quase hercúlea e desafiadora. A família luta para não se desagregar e conseqüentemente poder minimizar os efeitos maléficos sobre a geração em crescimento. Mas os filhos, ainda que muito pequenos, percebem, ou melhor dizendo, sentem intuitivamente que a harmonia e o entendimento entre as pessoas que lhes são muito significativas já desapareceram ou estão em vias de se esfacelar.
.
As conseqüências que podem advir são plenamente previsíveis. A escola, com raras exceções no ensino privado e tradicionalista, já se deixou contaminar pelo imediatismo reinante e a superficialidade e pragmatismo do que se transmite aos alunos. E que valores podem estar norteando, ensinando rumos aos jovens em geral que, independentemente das características do momento atual, atravessam normalmente crises e problemas maiores ou menores no seu processo de desenvolvimento e inserção na vida adulta?
.
O jovem de hoje - e eu me refiro aos jovens privilegiados de uma classe média alta, com direito e usufruto de muitas benesses - "não está nem aí", repetindo uma expressão comum no seu vocabulário. Eles têm ânsia e pressa de viver, e engolem a vida com voracidade e destempero. Conflitos entre gerações não são novidade alguma. Mas o que se percebe atualmente é uma escancarada e desrespeitosa atitude de afronta e de acinte face às gerações mais velhas.
.
É óbvio que este enfoque é generalizado e felizmente existem honrosas e dignas exceções. Há um certo quê de alienação nestes jovens, que talvez denote um descrédito, uma desesperança, um sentimento de frustração em relação aos mais velhos que estão "pintando e bordando" nas altas esferas governamentais, dando péssimos exemplos para os mais jovens.
.
Os jovens privilegiados praticam o mandamento do carpe diem, isto é, agarram e usufruem os seus dias, pouco ou quase nada se importando com o que de importante, grave e sério esteja acontecendo ao seu redor. Nem sempre foi assim. Bem recentemente, houve demonstrações de engajamento político de muitos jovens que participaram ativamente de campanhas esperançosas. Tenho a impressão de que eles não sejam totalmente alienados; talvez estejam cansados e desiludidos com o estado de coisas de nosso país. E não é para estar? A lama e o lodaçal em que chafurdam muitos dos nossos políticos só fazem crescer. Educar é transmitir, mas, sobretudo é fornecer exemplos. Que exemplos estão sendo transmitidos pelas ditas altas esferas? Parece que o lodaçal que já formou há muito tempo está se tornando gigantesco, imenso. Não dá tempo para se assimilar com um certo "conforto" tanta sujeira, tanta corrupção jamais vistas.
.
Os vícios, os descalabros, a incompetência, o abuso de poder campeiam nas altas esferas e parecem poder contagiar a sociedade em geral que está moralmente contaminada. É o exemplo que vem das camadas superiores que possui muita força de influência e persuasão. Aos poucos, ao mesmo tempo em que a maioria do povo, quando questionada em pesquisa, repudia e repele a corrupção, no seu dia a dia, ela tolera e pratica pequenas "desonestidades". Aí está o perigo, pois de uma pequena infração, parte-se com maior facilidade para as maiores e mais perigosas.
.
Persiste o desafio implícito na pergunta que serve de título para este artigo. Como educar as gerações futuras nesta nossa realidade tão turbulenta e enlameada? Tomar plena consciência deste sombrio estado de coisas, discuti-lo com abertura de espírito e principalmente dar e executar diariamente nas atividades e nos contactos mais simples exemplos de correção, justiça e ética, já seria um bom - ou talvez auspicioso, embora modesto - começo.