Por Reinaldo Azevedo
.
Fernando Henrique Cardoso nunca disse aquela besteira que lhe atribuem: “Esqueçam o que escrevi”. Pela simples e óbvia razão de que é o caso de lembrar, não de esquecer. Tenho poucos orgulhos — e os buracos no crânio, os adicionais, não estão entre eles, hehe. Um deles também é gostar que lembrem o que escrevi, a exemplo do texto abaixo, postado às 8h01 do dia 14 deste mês, quinta feira retrasada. O título é “Lula: teoria, prática e salário mínimo”. Leiam a reprodução, que segue em itálico, depois volto.
.
.
Fernando Henrique Cardoso nunca disse aquela besteira que lhe atribuem: “Esqueçam o que escrevi”. Pela simples e óbvia razão de que é o caso de lembrar, não de esquecer. Tenho poucos orgulhos — e os buracos no crânio, os adicionais, não estão entre eles, hehe. Um deles também é gostar que lembrem o que escrevi, a exemplo do texto abaixo, postado às 8h01 do dia 14 deste mês, quinta feira retrasada. O título é “Lula: teoria, prática e salário mínimo”. Leiam a reprodução, que segue em itálico, depois volto.
.
Empiristas empedernidos costumam desdenhar dos teóricos. Acham que é a prática que dá todas as respostas. Os teóricos seriam nefelibatas alheios ao que acontece no chão. Com efeito, o ordenamento prático da vida costuma apresentar circunstâncias não inscritas nas margens de erro dos estudiosos. Nem por isso, claro, o aporte teórico é dispensável. Muito ao contrário. A maçã cairá da macieira enquanto houver a Lei da Gravidade. Ela já era um dado do mundo antes de ser descrita. A teoria a descreveu e passou a fazer ensaios a partir desse conhecimento. Sei que estou aqui a dizer um tanto de obviedade. No Brasil, nunca se dispensa.Do que se sabe até agora do tal “destravamento” do país, ainda não li o que, a esta altura, parece tão óbvio: na teoria, o modelo de Lula não voa. Explico-me: basta ler as medidas que estão sendo estudadas (veja abaixo) para perceber que a ordem geral vai ser cortar gastos, ou, quando menos, congelá-los. Ao mesmo tempo, o presidente se encontra com os tais movimentos sociais e anuncia a política de continuidade das generosidades. Na ordem geral das coisas, as duas opções não se combinam.
O caso do salário mínimo é muito claro. Seu valor está atrelado à expansão da economia. Por razões orçamentárias, é preciso mandar ao Congresso uma previsão. Ocorre que se errou feio no chute do índice de expansão do PIB. A única coisa razoável a fazer é bater o martelo nos R$ 367, não nos R$ 375, e testar a base. Vai ter a coragem de fazê-lo? Observe-se, de resto, que o tal conjunto de propostas que está em debate parece uma colcha de retalhos de medidas pontuais. Nada que mude a dinâmica em curso. Por isso Lula já está apeando da sua promessa de crescimento de 5%, uma armadilha cretina que criou para si mesmo.
.
.
Como sabem, o valor do mínimo ficou acima até dos R$ 375, e já se prometeu um regra de reajuste que vai acabar fazendo com que ele cresça sempre mais do que o país. Bom para os pobres? Depende do período de que se está falando. Como evidencia Luiz Carlos Mendonça de Barros, a Previdência arcará com as conseqüências, com o poder que o setor tem de tornar o país mais caro, refletindo, como se sabe, na conta dos juros.
.
.
Mas não é só isso, não. O aumento de gastos do governo também significa menos sobra para investir, o que, por seu turno, também concorre para o baixo crescimento. Pronto! Está fechado o ciclo. Mantega só ontem admitiu, pobre coitado!, que a economia não crescerá 3% neste ano. Querem que eu lembre o que ele dizia há seis meses? Há quatro? Há dois? E também já desembarcou dos 5% no ano que vem. Reportagem da Folha, vejam abaixo, evidencia que os R$ 380 fizeram parte de um truquezinho de marketing, bom para Lula, bom para as centrais sindicais. Mantega falou em R$ 367, os parlamentares bateram pé em R$ 375, e o Babalorixá, atendendo os “companheiros”, deu R$ 380. Companheiros que, até anteontem, vestiam nariz de palhaço para hostilizar os deputados do “salarizo”. O Congresso não presta; Lula é bom.
.
.
E ele ainda ensinou: “Certamente [o Brasil] não sofrerá nenhum arranhão porque a medida trará mais qualidade de vida à população e não inviabilizará o crescimento. Acho que não é possível governar o país apenas com a racionalidade das pesquisas e dos números. O Brasil já foi governado assim durante um século, e os resultados não foram os melhores. É preciso que a gente governe com a racionalidade, com a verdade dos números, com a realidade do país, mas é preciso que a gente tenha sensibilidade."
.
.
O crescimento medíocre faz um país de pedintes, atendidos pela máquina assistencialista oficial, de que Lula é monopolista e beneficiário. É o que nos oferece a sua conciliação entre “razão” e “sensibilidade”.