sábado, dezembro 23, 2006

Porque é pecado falar em ideologia

Por Pedro Porfírio, na Tribuna da Imprensa
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"Ideologia, eu quero uma para viver." (Cazuza)
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A população dos Estados Unidos é hoje de 300 milhões de habitantes, equivalente a 5% da população do mundo. Seu PIB - Produto Interno Bruto - é de 12 trilhões, 360 bilhões de dólares. Sua renda per capita anual é de 41 mil, 399 dólares. Para você ter uma idéia, com 188 milhões de habitantes, o Brasil tem um PIB de 1 trilhão 577 bilhões e uma renda per capita de 8 mil e 49 dólares.
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Com esses 5% de habitantes da Terra e com essa pujança econômica, os Estados Unidos consomem 25% das drogas refinadas no mundo, conforme admitiu o então presidente Bill Clinton. E têm 25% da população carcerária mundial, com um total de 7 milhões de presos: um em cada 32 adultos estava atrás das grades ou em liberdade condicional ao final de 2005, segundo relatório do Departamento de Justiça, divulgado no último dia 30 de novembro.
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Como explicar isso? Nos Estados Unidos, há um completo desprezo por ideologias, valores éticos, morais e até religiosos. A igreja católica é campeã de manchetes sobre pedofilia. Praticamente todo o patrimônio do arcebispado de Boston está empenhado para pagar indenizações às vítimas dos abusos sexuais dos seus prelados.
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Onde o dinheiro é tudo
Nos Estados Unidos só se pensa em dinheiro. Lá cada um vale pelo que tem. E tudo o que cada norte-americano deseja é ter mais, ser mais, galgar novos degraus. Porque essa é a condição frenética de uma civilização fundada no princípio do sucesso pessoal: a civilização capitalista ocidental.
.Não estou usando o exemplo norte-americano por pirraça.
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Estou falando do país mais rico do universo, que perdeu totalmente o sentido da vida. Porque desde sua independência, em 1776, viveu a eterna corrida do ouro, com a qual se apoderou da metade do México, comprou a Louisiana, o Alasca, e transformou Porto Rico em "estado associado".
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Com esse desiderato, o país de Abraão Lincoln sempre esteve vacinado contra ideologias ou até mesmo movimentos operários consistentes. Os sindicatos são verdadeiras empresas e parte deles, como o maior de todos - o de transportes -, tem o sangue da máfia em seu DNA.
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Lá, os grandes fundos de pensões são geridos pelas milionárias máquinas sindicais. Esse, aliás, foi o elo que aproximou Lula da AFL-CIO (a confederação operária) através de Stanley Gacek, um íntimo da corte petista.
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Não há elementos internos de drásticos conflitos sociais. Tudo se resolve com as fascinantes novidades de uma sociedade de consumo a caminho da robotização. As megametrópoles impuseram o "american way of life" como sonho de todas as gerações e em todos os rincões.
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A norte-americana é uma sociedade engessada politicamente. Embora existam dezenas de partidos, há uma deliberada polarização entre Republicanos e Democratas, surgidos da mesma cepa. O Partido Democrata foi fundado por Andrew Jackson em 1836, como dissidência do Republicano, fundado por Thomas Jefferson, em 1793.
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Não há lideranças juvenis ou universitárias. Até mesmo o racismo, que pontificou até os anos 60, encontrou um calmante, a partir do momento em que a sociedade afluente descobriu um novo filão: o emigrante da América Latina. O racismo é uma ferramenta para manter trabalhadores de segunda classe, com remuneração bem mais baixa.
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Exploração dos imigrantes
Com os latino-americanos o jogo é mais fácil. Há hoje oficialmente 40 milhões só de hispânicos, isso sem falar nos clandestinos. Em qualquer situação, estes passaram a suportar os trabalhos mais pesados com remuneração correspondente a um terço do que se paga a um norte-americano.
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Apesar dessa situação escrava, há milhares de latinos arriscando a vida para ir matar a fome por lá. Segundo o Hispanic Inmigration Trends 2005, publicado pelo Pew Hispanic Center, os retirantes do México encabeçam essa fuga. Aos Estados Unidos chegam cada ano 400.000 mexicanos e um milhão vê frustrado sua tentativa de passar pelos controles fronteiriços.
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Nessa sociedade não existem valores humanos, éticos, morais ou religiosos. O patriotismo se confunde com sanha imperialista. Ser patriota lá é seguir o lema "Deus salve a América e a ninguém mais", tão bem ironizado pelo diretor e ator negro Chris Rock em seu filme "Um pobretão na Casa Branca" ("Head of state").
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Não há ideologia. Nem mesmo se pode falar de uma ideologia norte-americana. E essa rejeição de uma ideologia é a rejeição de valores, de compromissos essenciais. E essa idéia de que ideologia é coisa de comunista, que cheira a mofo, é que torna a nação norte-americana um grande vulcão. De tanto cada um cuidar de si, de tanto o país depender da soma de sucessos pontuais muitas vezes conflitantes, e como nem lá todos podem subir, surgem os traumas existenciais, a busca da droga e de outras compensações.
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A invasão do Iraque é a conseqüência dessa civilização argentária. Mentiram para o povo, dizendo que Sadam Hussein desenvolvia armas bacteriológicas. E facilitaram o 11 de setembro de 2001, como provou Michael Moore, para avançar sobre o petróleo alheio e beneficiar descaradamente os complexos empresariais que financiaram a campanha de Bush.
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É verdade que hoje só 17% dos norte-americanos aprovam o genocídio promovido por seu governo no Iraque. Mas, como já disse, essa reação se deve muito mais aos 3.300 soldados mortos lá do que à matança de meio milhão de iraquianos.
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Porque a sociedade americana foi até 11 de setembro a sociedade da vitória. E jamais poderia imaginar detritos de guerra em seu território. Tanto que para muitos analistas e estudiosos, como Jessie Miligan, do "Fort Worth Star-Telegram", aquele foi o "último dia comum na vida do povo norte-americano".
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Eu bem que poderia estar falando da pauta de que a nossa imprensa se farta. Provavelmente, é isso que você gostaria que eu falasse. Mas prefiro ir onde ninguém vai. Penso no futuro dos meus filhos e de todos esses adolescentes sem futuro.
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Penso mais: vejo a podridão transformada num grande pântano, manchando quem menos se espera, em todos os ramos da vida, tudo porque é pecado falar em ideologia.