sábado, dezembro 23, 2006

Sem medo de transgredir

Dora Kramer, Estadão
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O Brasil está virando um lugar muito estranho para se viver Aqui o êxito não tem nada a ver com o mérito e vice-versa. Ganha quem pode mais, aplaude quem vê chance de ganhar também e reclama quem não se incomoda de ficar fora do jogo, no mais das vezes sendo chamado de hipócrita ou fariseu. Quando não insidioso conspirador.
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É como diz o deputado Paulo Delgado: O ambiente é de permissividade total, a política está descolada da moral. Passou a valer a regra de que se a transgressão é cometida à luz do dia todo erro é permitido, esta é a noção de transparência em vigor
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Uma das perdas mais lamentadas do Congresso, que não se elegeu na mesma Minas Gerais que deu votação recorde a Juvenil Alves em seu entra e sai da cadeia, Delgado vê na atitude de absoluta desfaçatez do Congresso ao se conceder aumentos de 90%, fora as mordomias, um reflexo de uma época em que se perdeu o valor entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso. Só o que vale é a publicidade e seus resultados exitosos.
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Petista, Delgado fala principalmente da inestimável contribuição que seu partido e o presidente da República eleito por ele deram à celebração desse tipo de mentalidade calcada na lei de Gérson, pela qual o que importa é levar vantagem em tudo.
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Errado está o perdedor, pois ao vencedor perdoa-se tudo.
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É isso que faz o Paulo Okamotto voltar ao Sebrae, o presidente, governadores e parlamentares tomarem posse com suas contas de campanha sob questionamento da Justiça Eleitoral, a Polícia Federal prender e soltar gente sem que os atos tenham conseqüência, deputados e senadores envolvidos em escândalos serem reeleitos e, em alguns casos, receberem do governo missões de importância estratégica, a presidente do Supremo Tribunal Federal ir ao Palácio do Planalto buscar apoio para aumentar salários dos magistrados e por aí afora, vai listando Paulo Delgado o rol de (mal) feitos plenamente aceitos pela população.
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Diante de tanta complacência, nada mais natural que os presidentes da Câmara e do Senado fizessem a conta do custo-benefício e concluíssem que a exacerbação do corporativismo parlamentar seria apenas um limite a mais a ser ultrapassado e logo absorvido.
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Há protestos, e muitos. Mas seria uma desconsideração para com o discernimento alheio concluir que a população está anestesiada por obra e graça do Divino.
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Tampouco é correto atribuir tudo aos efeitos do assistencialismo e transferir responsabilidade aos mais pobres. Eles são muitos, mas não são os únicos.
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Há mais gente que os beneficiados pelo Bolsa-Família optando nas pesquisas de opinião por saudar Luiz Inácio da Silva como o melhor presidente brasileiro de todos os tempos e escolhendo acrescentar 8 pontos porcentuais à avaliação positiva que resultou em sua reeleição, apesar de todos os pesares vistos e ouvidos durante os últimos quatro anos.
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Paulo Delgado acredita ter matado a charada: A maioria da população está harmonizada com a visão que o presidente tem da política, visão esta que não privilegia o mérito, mas o êxito a qualquer preço.
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Não se trata de culpar o eleitor, mas de analisar o fenômeno coletivo da idolatria sem base na racionalidade. Num regime presidencialista forte como o nosso, o presidente é modelo. E se a ele pouco se lhe dá a valorização da moral e dos bons costumes e ele é um vencedor, o resultado é o entendimento geral de que é possível vencer sem a observância das regras de conduta universalmente consagradas.
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O Brasil então passa a funcionar sob critérios diferentes. Aqui, entende-se, qualquer dificuldade pode ser transposta, desde que seja tudo feito à luz do dia e comunicado ao, nesta altura, já não tão respeitável público.
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Assim ocorreu que o caixa 2 perdeu conotação criminosa, que parlamentares contra os quais pesavam provas de corrupção receberam a absolvição das urnas, que a Polícia Federal termina a investigação sobre o dossiê Vedoin dando-se ao desfrute de não apontar autorias nem origem do dinheiro, que Waldomiro Diniz está impune até hoje, que a base parlamentar do governo seja comprada com cargos, que criminosos sejam tratados como autoridades, que os presidentes da Câmara e do Senado comprem seus votos para a reeleição com o dinheiro do orçamento do Poder Legislativo e tantas deformações mais.
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Nesse ambiente dissoluto não há quem esteja habilitado a atirar pedras. Ou melhor, há aquele grupo de pessoas, incluindo deputados e senadores, interessadas em resistir, porque ainda não perderam o senso da transgressão em contraponto à correção.
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Mas estes são tratados como traidores, hipócritas, fariseus, conspiradores a quem se deve menosprezar por serem fracos, perdedores ante a fortaleza da esperta degenerescência vencedora.
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Junto com a indignação contra os aumentos no Congresso conviria aos cidadãos analisar se estão mesmo fazendo a sua parte ou se condenam apenas uma parte cuja conduta é produto de um todo.