Argemiro Ferreira, Tribuna da Imprensa
Não esperava voltar mais ao assunto, só que não há como deixar de fazê-lo. Pois está de novo circulando na internet, como se fosse real, o mapa grosseiramente falsificado no qual a Amazônia aparece como "reserva internacional da floresta amazônica". Mapa este supostamente reproduzido de uma página de suposto livro didático que estaria sendo usado em escolas dos EUA.
Ali aparece o nome do autor, David Norman, e o título do livro, "Introduction to geography". Pela enésima vez reafirmo ao leitor: 1. O tal livro não existe, não é usado em nenhuma escola americana; 2. Existe um autor com esse nome, mas escreve livros sobre dinossauros; 3. O texto foi forjado provavelmente no Brasil, pois o inglês é macarrônico.
Recomendo aos bobos que se deixam enganar por essa história idiota que tratem de fazer alguma coisa útil em vez de perder tempo a repassá-la a outros como se fosse a coisa mais séria do mundo, com avisos como estes: "Indignação. Para ficarmos indignados!!!! Observem abaixo a página de um livro de geografia adotado nos EUA e leiam as críticas dos brasileiros".
Entre a ficção e a realidade
Tenho desmentido esse embuste pelo menos desde 1999, mas a bobajada sempre volta. Não se mudou sequer a origem do boato - é sempre atribuído a uma brasileira residente em Austin, que teria visto o tal o mapa no tal livro didático inexistente e enviado uma carta ao jornal "O Estado de S. Paulo". O próprio jornal já fez amplo esclarecimento em pesquisa minuciosa sobre a impostura.
Em abril de 2000, julho de 2001 e mais duas ou três vezes nos anos seguintes, voltei ao tema por ver que retornava teimosamente como verdade, a justificar denúncias indignadas. Creio que a última referência minha ao caso foi a 17 de maio de 2004. Por um bom motivo: o "New York Times" citava o caso como prova de que brasileiros são paranóicos em relação às ameaças dos EUA à Amazônia.
Na verdade, suspeito que a intenção dos autores do embuste pode ser exatamente essa - convencer brasileiros de que não há ameaça alguma, é pura paranóia. Mas se o mapa, o livro e o autor são meras invenções, a ameaça é verdadeira. Seria bom que os bobos parassem de falar no mapa fictício e passassem a citar à realidade concreta da ameaça à Amazônia.
Tenho insistido, por exemplo, em citar a tese defendida por um professor da Universidade de Harvard, Juan Enriquez-Cabot, do Centro David Rockefeller sobre a América Latina. Ele ganhou ainda o apoio do principal colunista americano especializado em América Latina - Andrés Oppenheimer, do jornal "Miami Herald" e sua versão espanhola "El Heraldo", publicados na Flórida.
Tentando dividir países grandes
Em artigo saído na importante revista "Foreign Policy", edição do outono de 1999, sob o título "Too many flags?" (Bandeiras demais?), Enriquez-Cabot argumenta que na África, Ásia e África as nações se dividem em ritmo sem precedentes. Até agora, observou, o hemisfério ocidental esteve imune a tais impulsos secessionistas, mas as fronteiras das Américas não são tão estáveis como parecem.
O ensaio argumenta que países pequenos como Luxemburgo, Cingapura e Suíça estão entre os que mais prosperaram depois da II Guerra Mundial. Enriquez foi negociador do governo mexicano no conflito de Chiapas, e entre os exemplos que deu no ensaio estavam as nações indígenas - os maias teriam parte do México e Guatemala; os mapuches, do Chile.
Não basta para justificar a paranóia de quem teme complôs contra a Amazônia? Ianomâmis independentes teriam partes do Brasil e Venezuela. Os índios da Amazônia contam com o "lobby" de ONGs na Europa e EUA. E Enriquez diz que nos países em desenvolvimento (México, Brasil) os mais pobres dos pobres - maias, mapuches - já se perguntam que benefícios reais têm com a atual identidade nacional.
Relacionando o artigo do acadêmico de Harvard a certos dados citados na época pelo "Economist", de Londres, Andrés Oppenheimer, o jornalista do "Miami Herald", apaixonou-se pela idéia. E concluiu que o mapa latino-americano será diferente em 2050. "O mundo tinha 62 países em 1914. Em 1946 o total já era 74. Hoje já pulou para 193", argumentou.
Acionistas em vez de cidadãos
A parte que Oppenheimer achou "mais interessante" na análise de Enriquez é a que comparava países com corporações, sob o império globalizante do neoliberalismo: "Hoje os governos que querem manter intactas suas fronteiras têm de tratar seus cidadãos como se fossem acionistas, que podem vender suas ações, forçar mudanças na administração ou reduzir o tamanho do estado".
E o pesquisador de Harvard alega que as vozes dos indígenas, como as de outros setores dos países grandes e pouco desenvolvidos, podem crescer porque quanto mais globalizado se torna o mundo menos traumático será para os nacionalistas a separação de seus estados. "A globalização está reduzindo o mundo às suas partes componentes, mesmo quando junta essas partes", escreveu ele.
Para sobreviver com as fronteiras atuais, disse Enriquez, os governos da América Latina terão de dar mais autonomia a grupos regionais e não insistir em "velhas doutrinas autoritárias obcecadas por soberania". Engraçado é que não se lembra que os EUA, em dois séculos, só expandiram - à custa dos territórios roubados do México. Outro detalhe: alguns dos menores países do mundo são tão miseráveis como as regiões mais pobres do Brasil e da Índia; e não prósperos como Suíça e Luxemburgo.
Não esperava voltar mais ao assunto, só que não há como deixar de fazê-lo. Pois está de novo circulando na internet, como se fosse real, o mapa grosseiramente falsificado no qual a Amazônia aparece como "reserva internacional da floresta amazônica". Mapa este supostamente reproduzido de uma página de suposto livro didático que estaria sendo usado em escolas dos EUA.
Ali aparece o nome do autor, David Norman, e o título do livro, "Introduction to geography". Pela enésima vez reafirmo ao leitor: 1. O tal livro não existe, não é usado em nenhuma escola americana; 2. Existe um autor com esse nome, mas escreve livros sobre dinossauros; 3. O texto foi forjado provavelmente no Brasil, pois o inglês é macarrônico.
Recomendo aos bobos que se deixam enganar por essa história idiota que tratem de fazer alguma coisa útil em vez de perder tempo a repassá-la a outros como se fosse a coisa mais séria do mundo, com avisos como estes: "Indignação. Para ficarmos indignados!!!! Observem abaixo a página de um livro de geografia adotado nos EUA e leiam as críticas dos brasileiros".
Entre a ficção e a realidade
Tenho desmentido esse embuste pelo menos desde 1999, mas a bobajada sempre volta. Não se mudou sequer a origem do boato - é sempre atribuído a uma brasileira residente em Austin, que teria visto o tal o mapa no tal livro didático inexistente e enviado uma carta ao jornal "O Estado de S. Paulo". O próprio jornal já fez amplo esclarecimento em pesquisa minuciosa sobre a impostura.
Em abril de 2000, julho de 2001 e mais duas ou três vezes nos anos seguintes, voltei ao tema por ver que retornava teimosamente como verdade, a justificar denúncias indignadas. Creio que a última referência minha ao caso foi a 17 de maio de 2004. Por um bom motivo: o "New York Times" citava o caso como prova de que brasileiros são paranóicos em relação às ameaças dos EUA à Amazônia.
Na verdade, suspeito que a intenção dos autores do embuste pode ser exatamente essa - convencer brasileiros de que não há ameaça alguma, é pura paranóia. Mas se o mapa, o livro e o autor são meras invenções, a ameaça é verdadeira. Seria bom que os bobos parassem de falar no mapa fictício e passassem a citar à realidade concreta da ameaça à Amazônia.
Tenho insistido, por exemplo, em citar a tese defendida por um professor da Universidade de Harvard, Juan Enriquez-Cabot, do Centro David Rockefeller sobre a América Latina. Ele ganhou ainda o apoio do principal colunista americano especializado em América Latina - Andrés Oppenheimer, do jornal "Miami Herald" e sua versão espanhola "El Heraldo", publicados na Flórida.
Tentando dividir países grandes
Em artigo saído na importante revista "Foreign Policy", edição do outono de 1999, sob o título "Too many flags?" (Bandeiras demais?), Enriquez-Cabot argumenta que na África, Ásia e África as nações se dividem em ritmo sem precedentes. Até agora, observou, o hemisfério ocidental esteve imune a tais impulsos secessionistas, mas as fronteiras das Américas não são tão estáveis como parecem.
O ensaio argumenta que países pequenos como Luxemburgo, Cingapura e Suíça estão entre os que mais prosperaram depois da II Guerra Mundial. Enriquez foi negociador do governo mexicano no conflito de Chiapas, e entre os exemplos que deu no ensaio estavam as nações indígenas - os maias teriam parte do México e Guatemala; os mapuches, do Chile.
Não basta para justificar a paranóia de quem teme complôs contra a Amazônia? Ianomâmis independentes teriam partes do Brasil e Venezuela. Os índios da Amazônia contam com o "lobby" de ONGs na Europa e EUA. E Enriquez diz que nos países em desenvolvimento (México, Brasil) os mais pobres dos pobres - maias, mapuches - já se perguntam que benefícios reais têm com a atual identidade nacional.
Relacionando o artigo do acadêmico de Harvard a certos dados citados na época pelo "Economist", de Londres, Andrés Oppenheimer, o jornalista do "Miami Herald", apaixonou-se pela idéia. E concluiu que o mapa latino-americano será diferente em 2050. "O mundo tinha 62 países em 1914. Em 1946 o total já era 74. Hoje já pulou para 193", argumentou.
Acionistas em vez de cidadãos
A parte que Oppenheimer achou "mais interessante" na análise de Enriquez é a que comparava países com corporações, sob o império globalizante do neoliberalismo: "Hoje os governos que querem manter intactas suas fronteiras têm de tratar seus cidadãos como se fossem acionistas, que podem vender suas ações, forçar mudanças na administração ou reduzir o tamanho do estado".
E o pesquisador de Harvard alega que as vozes dos indígenas, como as de outros setores dos países grandes e pouco desenvolvidos, podem crescer porque quanto mais globalizado se torna o mundo menos traumático será para os nacionalistas a separação de seus estados. "A globalização está reduzindo o mundo às suas partes componentes, mesmo quando junta essas partes", escreveu ele.
Para sobreviver com as fronteiras atuais, disse Enriquez, os governos da América Latina terão de dar mais autonomia a grupos regionais e não insistir em "velhas doutrinas autoritárias obcecadas por soberania". Engraçado é que não se lembra que os EUA, em dois séculos, só expandiram - à custa dos territórios roubados do México. Outro detalhe: alguns dos menores países do mundo são tão miseráveis como as regiões mais pobres do Brasil e da Índia; e não prósperos como Suíça e Luxemburgo.