terça-feira, janeiro 30, 2007

Crescer com o pé no freio?

Editorial do Jornal do Brasil
.

Tisnada pela incompreensão do Palácio do Planalto sobre as verdadeiras travas que impedem o Brasil de crescer, a primeira semana depois da divulgação do Programa de Aceleração do Crescimento revelou-se pouco animadora. Como se sabe, é com o PAC que o presidente Lula pretende achar o que a (in)competência lhe sonegou até agora - um desenvolvimento mais vistoso e sustentado. Mas faltou ao pacote, e à disposição governamental exibida nos dias seguintes, tocar no real vespeiro: a tríade formada por uma Previdência Social deficitária, pelas leis trabalhistas anacrônicas e pela excessiva gordura do Estado.
.
Embora tais problemas configurem o mais agudo obstáculo do crescimento, nem de perto foram tangenciados pelo governo, antes, durante e depois da divulgação do programa. O mais inquietante é saber que as mesmas aflições não parecem ser compartilhadas pelo Planalto. Não há evidência mais clara do que a criação de um grupo de trabalho para "discutir" as crateras abertas na Previdência. A República Velha não produziria melhor artifício - o recurso típico de quem deseja fazer algo sem fazer de fato. Dá-se a impressão ao distinto público que o problema está resolvido e vamos em frente.
.
Não vamos. Na sexta-feira foi divulgado o tamanho do déficit da Previdência em 2006: espantosos R$ 42 bilhões, 11% maior do que no ano anterior. Se o rombo é desse tamanho, se o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconhece que vem crescendo de maneira explosiva e que "nos próximos 30 anos vai desandar", se as ações de combate às fraudes e desperdícios se mostram insuficientes, se diagnósticos e prognósticos em profusão estão postos à mesa do presidente e auxiliares, por que relegar o tema a segundo plano? Paciência.
.
Exceto alguns integrantes do governo, quadrilhas beneficiárias e privilegiados do sistema, todos sabem que o modelo previdenciário brasileiro é sui generis.
.
No setor público, os funcionários se aposentam com vencimentos integrais, desde que tenham completado 60 anos de idade, os homens, e 55 anos, as mulheres. No setor privado, o teto da aposentadoria é de cerca de R$ 2.800, mas o trabalhador pode aposentar-se com qualquer idade. Basta que tenha contribuído para o INSS durante 35 anos, se homem, ou 30 anos, se mulher. Igual benefício, nem nas mais ricas nações do mundo conseguem.
.
A precocidade é um falso direito exercido à custa dos contribuintes do presente e do comprometimento das gerações futuras. Os R$ 42 bilhões saem das contas públicas nacionais. Para compensá-los, o Estado drena recursos e energia do setor privado - e dá-lhe impostos às alturas e juros elevadíssimos a fim de atrair dividendos para sustentar o corpanzil estatal.
.
As cordas da asfixia, contudo, não se prendem aí. Ao empurrar com a barriga outras reformas estruturais imprescindíveis, como a trabalhista e a tributária, o governo exige de empresas e trabalhadores o que o setor público se revela incapaz de fazer - redução drástica de despesas. A legislação trabalhista amplia o custo do emprego e estimula a informalidade. A barafunda de impostos atormenta os bons pagadores, irriga o terreno dos sonegadores e atravanca os investimentos.
.
Se o PAC não foi ao fundo do que devia na redução dos gastos públicos, também não atacou os tumores que eternizam a paquidérmica ineficiência da máquina estatal. Fechando o ciclo, o governo não emitiu nenhum sinal de que outras reformas estruturais virão por aí. É como precisou a manchete do JB depois anúncio do programa: o governo tenciona acelerar com o pé no freio. A equação não fecha.