Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
BRASÍLIA - Não dá para calar, tanto a indagação quanto a indignação: por que diabo os Estados Unidos estão bombardeando a Somália? Em nome de que megalomania o presidente George W. Bush decidiu enviar um avião bombardeiro para destruir parte de uma miserável aldeia de um dos países mais pobres e famintos da África?
Se foi para derrotar tropas fundamentalistas já derrotadas pelo exército da Etiópia, aliás subvencionadas pelos americanos, tratou-se de desperdício de material bélico. Estava destroçada a força que pretendia estabelecer naquele país um governo xiita, nos moldes do Irã. Por que, então, matar civis inocentes já morrendo de fome?
O pretexto para o ataque à aldeia de Hayo surge pior ainda, se foi para eliminar um chefe da al-Qaeda supostamente envolvido nos atentados de 1988 às embaixadas americanas na Tanzânia e no Quênia. Esperar esse tempo todo equivale a mais do que guardar ódio na geladeira.
No fundo, tratou-se de nova demonstração de força por parte de quem não precisa demonstrar mais nada, depois da invasão do Afeganistão e do Iraque. Continuando as coisas como vão, não haverá lugar no planeta que o presidente dos Estados Unidos não possa enviar seus mísseis. Qualquer dia desses o mundo muçulmano resolverá unir-se e o pior acontecerá, porque como disse Einstein uma vez, sobre a Terceira Guerra Mundial ele não faria previsões, mas tinha certeza de que a Quarta seria travada com paus e pedras...
O povo americano nada tem a ver com a insânia de seus dirigentes atuais. Aliás, menos de 50% dos cidadãos votaram nas últimas eleições. Nem 2% saberão onde fica a Somália, mas o triste é que tudo o que acontece acaba sendo atribuído "aos americanos". Melhor teria feito Bush se, em vez de matar dezenas de civis na Somália, tivesse despejado lá algumas toneladas de alimentos.
O jornal tinha razão
A propósito, conta-se uma historinha que foi hilariante, mas, com o passar do tempo, ameaça tornar-se verdadeira. Na virada da Segunda Guerra os exércitos do general Mark Clark aproximavam-se de Roma. Os alemães se retiraram um dia antes da entrada vitoriosa e a imprensa italiana, livre da censura, saudava os americanos em vibrantes manchetes: "Bem-vindos Libertadores!", "Salve a Democracia!" "Estamos Livres" e outras. Um pequeno jornal comunista, porém, destoou. Sua manchete: "Americanos, fora de Roma!"
Continuando as coisas como vão, será esse o sentimento geral, em Roma e fora de Roma. Em pouco tempo os cidadãos do mundo inteiro desenvolverão para com os Estados Unidos um generalizado sentimento de medo e de repúdio. Imagine-se um chefe qualquer da al-Qaeda ou entidade parecida homiziado em Caracas, por exemplo. Ou em (cala-te boca)...
Vingança pura
Para ficar no plano internacional, mas em tema correlato, registre-se o choque que tem sido esta semana a divulgação sucessiva de imagens da execução de Saddam Hussein. Transformaram o ditador em mártir e ainda passam recibo através de vídeos e fotografias. Quem transformou?
Ora, se feita uma pesquisa, a maioria dirá: os americanos...O enforcamento de Saddam constituiu ato de vingança, em tudo diferente do enforcamento dos principais líderes nazistas condenados em Nuremberg por um tribunal internacional. Eles tiveram direito de defesa, tanto que alguns foram absolvidos.
Lixo da História
O governo títere do Iraque justificou, dois dias atrás, mais um ataque aéreo dos Estados Unidos a um bairro de Bagdá, a pretexto de acabar com partidários de Saddam Hussein refugiados na sede do Partido Baht, que um dia chegou a unir o Oriente Médio. Não adianta dizer que nenhum inocente morreu. A intensidade do bombardeio não deixa dúvidas.
Como passarão à História os trêfegos governantes que justificam, quando não pedem, o assassinato de seus irmãos? Não ficam atrás do atual presidente da Somália, que da capital, Mogadíscio, justificou a ação do bombardeio americano em Hayo, dizendo que os Estados Unidos têm o direito de assassinar terroristas onde quer que eles se encontrem.
Até numa pobre aldeia de seu país, onde, pelas primeiras informações, assassinaram cinqüenta civis inocentes. E não se sabe se conseguiram acertar o suposto auxiliar de Osama bin Ladem...
BRASÍLIA - Não dá para calar, tanto a indagação quanto a indignação: por que diabo os Estados Unidos estão bombardeando a Somália? Em nome de que megalomania o presidente George W. Bush decidiu enviar um avião bombardeiro para destruir parte de uma miserável aldeia de um dos países mais pobres e famintos da África?
Se foi para derrotar tropas fundamentalistas já derrotadas pelo exército da Etiópia, aliás subvencionadas pelos americanos, tratou-se de desperdício de material bélico. Estava destroçada a força que pretendia estabelecer naquele país um governo xiita, nos moldes do Irã. Por que, então, matar civis inocentes já morrendo de fome?
O pretexto para o ataque à aldeia de Hayo surge pior ainda, se foi para eliminar um chefe da al-Qaeda supostamente envolvido nos atentados de 1988 às embaixadas americanas na Tanzânia e no Quênia. Esperar esse tempo todo equivale a mais do que guardar ódio na geladeira.
No fundo, tratou-se de nova demonstração de força por parte de quem não precisa demonstrar mais nada, depois da invasão do Afeganistão e do Iraque. Continuando as coisas como vão, não haverá lugar no planeta que o presidente dos Estados Unidos não possa enviar seus mísseis. Qualquer dia desses o mundo muçulmano resolverá unir-se e o pior acontecerá, porque como disse Einstein uma vez, sobre a Terceira Guerra Mundial ele não faria previsões, mas tinha certeza de que a Quarta seria travada com paus e pedras...
O povo americano nada tem a ver com a insânia de seus dirigentes atuais. Aliás, menos de 50% dos cidadãos votaram nas últimas eleições. Nem 2% saberão onde fica a Somália, mas o triste é que tudo o que acontece acaba sendo atribuído "aos americanos". Melhor teria feito Bush se, em vez de matar dezenas de civis na Somália, tivesse despejado lá algumas toneladas de alimentos.
O jornal tinha razão
A propósito, conta-se uma historinha que foi hilariante, mas, com o passar do tempo, ameaça tornar-se verdadeira. Na virada da Segunda Guerra os exércitos do general Mark Clark aproximavam-se de Roma. Os alemães se retiraram um dia antes da entrada vitoriosa e a imprensa italiana, livre da censura, saudava os americanos em vibrantes manchetes: "Bem-vindos Libertadores!", "Salve a Democracia!" "Estamos Livres" e outras. Um pequeno jornal comunista, porém, destoou. Sua manchete: "Americanos, fora de Roma!"
Continuando as coisas como vão, será esse o sentimento geral, em Roma e fora de Roma. Em pouco tempo os cidadãos do mundo inteiro desenvolverão para com os Estados Unidos um generalizado sentimento de medo e de repúdio. Imagine-se um chefe qualquer da al-Qaeda ou entidade parecida homiziado em Caracas, por exemplo. Ou em (cala-te boca)...
Vingança pura
Para ficar no plano internacional, mas em tema correlato, registre-se o choque que tem sido esta semana a divulgação sucessiva de imagens da execução de Saddam Hussein. Transformaram o ditador em mártir e ainda passam recibo através de vídeos e fotografias. Quem transformou?
Ora, se feita uma pesquisa, a maioria dirá: os americanos...O enforcamento de Saddam constituiu ato de vingança, em tudo diferente do enforcamento dos principais líderes nazistas condenados em Nuremberg por um tribunal internacional. Eles tiveram direito de defesa, tanto que alguns foram absolvidos.
Lixo da História
O governo títere do Iraque justificou, dois dias atrás, mais um ataque aéreo dos Estados Unidos a um bairro de Bagdá, a pretexto de acabar com partidários de Saddam Hussein refugiados na sede do Partido Baht, que um dia chegou a unir o Oriente Médio. Não adianta dizer que nenhum inocente morreu. A intensidade do bombardeio não deixa dúvidas.
Como passarão à História os trêfegos governantes que justificam, quando não pedem, o assassinato de seus irmãos? Não ficam atrás do atual presidente da Somália, que da capital, Mogadíscio, justificou a ação do bombardeio americano em Hayo, dizendo que os Estados Unidos têm o direito de assassinar terroristas onde quer que eles se encontrem.
Até numa pobre aldeia de seu país, onde, pelas primeiras informações, assassinaram cinqüenta civis inocentes. E não se sabe se conseguiram acertar o suposto auxiliar de Osama bin Ladem...