Por Willian Waack, G1
Hugo Chávez e o que ele representa são um perigo sério para a estabilidade, a prosperidade e a democracia na América do Sul. O governo brasileiro não vê ou não quer ver que cada abraço de urso do "muy amigo" é seguido de uma punhalada nas costas.
O que o presidente venezuelano a caminho de ser ditador ressuscitou é um zumbi político. Nada existe de consistente no "socialismo bolivariano" que ele propõe, a não ser a centralização do poder político e econômico nas próprias mãos. Nada existe em suas propostas que possa significar a médio e longo prazo uma diminuição da pobreza na Venezuela (que aumentou em 8% nos seus anos de governo).
Chávez pratica um tipo de populismo que pode ser comparado, em alguma medida, ao que fez outro colega coronel 60 anos atrás, Juan Domingo Perón, na Argentina: é comprar o voto das massas através de políticas assistencialistas que só perpetuam a dependência do Estado e aliviam um pouco a miséria, sem jamais erradicá-la.
O caudilho venezuelano esbanjou dinheiro do petróleo da mesma maneira que outros países o fizeram (há muitos exemplos no Oriente Médio, na África e na Ásia Central): sem criar estruturas que permitam ao país diversificar a economia ou diminuir a própria dependência das vendas do petróleo. Em termos econômicos, é uma visão simplista e de curto prazo.
O grave de Chávez é o que ele significa para todos nós do ponto de vista político. Sua mescla de Fidel e Cristo é pura retórica ôca que mal disfarça o que um coronel golpista tem na cabeça: esmagar oposicionistas, reprimir a liberdade de expressão, declarar-se como "a verdade" e proclamar uma utopia que está criando ao seu redor novos riquíssimos e mais corrupção.
Não há critérios puramente racionais no comportamento de dirigentes políticos - assim como se pode dizer (sem nenhum rigor científico, é claro) que, igualmente, há um "inconsciente coletivo" no comportamento de massas e eleitores. No caso de alguns países sul americanos, existe um fortíssimo apego à noção - quase supersticiosa? - de que a mão do Estado tudo fará pelo bem estar de cada indivíduo. É o que em parte explica os aplausos que Chávez e outros dirigentes sul americanos recebem toda vez que tratam de privatização como um mal a ser combatido, e a estatização/nacionalização como um bem a ser reconquistado.
Outro elemento inalienável nesse "inconsciente" popular é a idéia de que sempre há um inimigo responsável pelo percebido atraso e abismos sociais. No caso de Chávez, são os Estados Unidos, país com o qual ele manteve até agora as melhores relações comerciais possíveis, desfrutando na prática de um tratado de comércio bilateral que ele execra no caso de outros países latino-americanos (no caso do Brasil, o tal inimigo são "as elites", nunca claramente definidas, mas sempre mencionadas).
Algumas correntes intelectuais no Brasil e na América do Sul abominam Chávez pelo que ele representa de atraso político mas, ao mesmo tempo, apressam-se em dizer que o surgimento de personagens negativos, como é o presidente venezuelano, deve-se ao fracasso de políticas econômicas ditadas lá fora - no fundo, a repetição da idéia de que há uma "conspiração" para nos manter na lanterninha do mundo.
Na verdade, o que nos falta em primeiro lugar é deixar de lado esse apego ao "realismo mágico" da política, que nos faz, em geral, preferir o sonho à realidade (conforme dizia o escritor peruano Mário Vargas Llosa). Nesse sentido, ironicamente, Chávez tem toda razão. O apelo que ele constrói juntando Fidel Castro, Simón Bolívar e Jesus Cristo não tem de ser considerado a partir do que fizeram esses personagens, históricos ou míticos. O que está tão presente no nosso "inconsciente" é a crença de que a igualdade social é uma redenção que virá pela mão forte e segura de um messias.
Não seria, porém, o Caribe se tudo o que Chávez faz e diz não estivesse cercado de um ar de palhaçada, e ele costuma ser cômico voluntária e involuntariamente. O grave problema é que, do ponto de vista dos interesses políticos brasileiros, nós continuamos batendo palmas achando que é um número de circo sem perceber que somos parte do que acontece no picadeiro.
A condução da política externa brasileira em relação à nossa esfera mais vital é dificultada pela visão ideológica e atrasada de seus principais formuladores - se é que fazer nada pode ser considerado "formulação". Gostando ou não de Chávez, é inegável que ele tem um rumo, uma direção e um sentido. Quais são os nossos?
Hugo Chávez e o que ele representa são um perigo sério para a estabilidade, a prosperidade e a democracia na América do Sul. O governo brasileiro não vê ou não quer ver que cada abraço de urso do "muy amigo" é seguido de uma punhalada nas costas.
O que o presidente venezuelano a caminho de ser ditador ressuscitou é um zumbi político. Nada existe de consistente no "socialismo bolivariano" que ele propõe, a não ser a centralização do poder político e econômico nas próprias mãos. Nada existe em suas propostas que possa significar a médio e longo prazo uma diminuição da pobreza na Venezuela (que aumentou em 8% nos seus anos de governo).
Chávez pratica um tipo de populismo que pode ser comparado, em alguma medida, ao que fez outro colega coronel 60 anos atrás, Juan Domingo Perón, na Argentina: é comprar o voto das massas através de políticas assistencialistas que só perpetuam a dependência do Estado e aliviam um pouco a miséria, sem jamais erradicá-la.
O caudilho venezuelano esbanjou dinheiro do petróleo da mesma maneira que outros países o fizeram (há muitos exemplos no Oriente Médio, na África e na Ásia Central): sem criar estruturas que permitam ao país diversificar a economia ou diminuir a própria dependência das vendas do petróleo. Em termos econômicos, é uma visão simplista e de curto prazo.
O grave de Chávez é o que ele significa para todos nós do ponto de vista político. Sua mescla de Fidel e Cristo é pura retórica ôca que mal disfarça o que um coronel golpista tem na cabeça: esmagar oposicionistas, reprimir a liberdade de expressão, declarar-se como "a verdade" e proclamar uma utopia que está criando ao seu redor novos riquíssimos e mais corrupção.
Não há critérios puramente racionais no comportamento de dirigentes políticos - assim como se pode dizer (sem nenhum rigor científico, é claro) que, igualmente, há um "inconsciente coletivo" no comportamento de massas e eleitores. No caso de alguns países sul americanos, existe um fortíssimo apego à noção - quase supersticiosa? - de que a mão do Estado tudo fará pelo bem estar de cada indivíduo. É o que em parte explica os aplausos que Chávez e outros dirigentes sul americanos recebem toda vez que tratam de privatização como um mal a ser combatido, e a estatização/nacionalização como um bem a ser reconquistado.
Outro elemento inalienável nesse "inconsciente" popular é a idéia de que sempre há um inimigo responsável pelo percebido atraso e abismos sociais. No caso de Chávez, são os Estados Unidos, país com o qual ele manteve até agora as melhores relações comerciais possíveis, desfrutando na prática de um tratado de comércio bilateral que ele execra no caso de outros países latino-americanos (no caso do Brasil, o tal inimigo são "as elites", nunca claramente definidas, mas sempre mencionadas).
Algumas correntes intelectuais no Brasil e na América do Sul abominam Chávez pelo que ele representa de atraso político mas, ao mesmo tempo, apressam-se em dizer que o surgimento de personagens negativos, como é o presidente venezuelano, deve-se ao fracasso de políticas econômicas ditadas lá fora - no fundo, a repetição da idéia de que há uma "conspiração" para nos manter na lanterninha do mundo.
Na verdade, o que nos falta em primeiro lugar é deixar de lado esse apego ao "realismo mágico" da política, que nos faz, em geral, preferir o sonho à realidade (conforme dizia o escritor peruano Mário Vargas Llosa). Nesse sentido, ironicamente, Chávez tem toda razão. O apelo que ele constrói juntando Fidel Castro, Simón Bolívar e Jesus Cristo não tem de ser considerado a partir do que fizeram esses personagens, históricos ou míticos. O que está tão presente no nosso "inconsciente" é a crença de que a igualdade social é uma redenção que virá pela mão forte e segura de um messias.
Não seria, porém, o Caribe se tudo o que Chávez faz e diz não estivesse cercado de um ar de palhaçada, e ele costuma ser cômico voluntária e involuntariamente. O grave problema é que, do ponto de vista dos interesses políticos brasileiros, nós continuamos batendo palmas achando que é um número de circo sem perceber que somos parte do que acontece no picadeiro.
A condução da política externa brasileira em relação à nossa esfera mais vital é dificultada pela visão ideológica e atrasada de seus principais formuladores - se é que fazer nada pode ser considerado "formulação". Gostando ou não de Chávez, é inegável que ele tem um rumo, uma direção e um sentido. Quais são os nossos?