domingo, janeiro 21, 2007

Mão pesada

José Paulo Kupfer, NoMínimo
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Com a divulgação pelo IBGE do IPCA de 2006, fica comprovado que o Banco Central errou na mão e apertou além do necessário a política monetária. Mais um pouco, de acordo com o sistema de metas de inflação, e o presidente do BC teria de enviar ao ministro da Fazenda uma carta com desculpas e explicações para o tiro fora do alvo. Desta vez, um inédito pedido de “waver” por ter errado…para baixo.
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A inflação de 2006 ficou em 3,14% quando a meta era 4,5%, com margem de 2 pontos para cima ou para baixo. Assim, se a inflação tivesse ficado abaixo de 2,5%, o ritual do pedido de desculpas, já usado no Brasil em 2001 e 2002, teria de ser repetido, só que, no caso, pelas razões inversas. Formalmente, não foi preciso. A inflação, ainda que mais próxima do piso, ficou dentro da meta. Mas bem que a diretoria do BC poderia se desculpar pela barbeiragem. Afinal, quanto se perdeu de crescimento econômico, de empregos, arrecadação tributária e câmbio mais favorável à produção com a manutenção de juros básicos acima do suficiente para cumprir a meta?
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Desde o Plano Real, só houve inflação mais baixa em 1998, quando os preços, medidos pelo IPCA, subiram 1,65%. O detalhe é que não terá sido mera coincidência o fato de que, naquele ano como em 2006, o real estive valorizado. No caso brasileiro recente, depois de derrubada a inércia inflacionária, nada é mais eficaz para segurar preços do que o câmbio valorizado.
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O ano 1998, para quem não lembra, foi o último em que vigorou o sistema de câmbio fixado que acompanhou o Plano Real em seus primeiros três anos e meio. Na defesa de uma taxa de R$ 1,20 por dólar, em meio à crise russa, o governo literalmente torrou, em menos de seis menos, US$ 40 bilhões – dois terços das reservas internacionais acumuladas com uma taxa de juros acima das nuvens.
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Em 2006, o câmbio valorizado fez, mais uma vez, o serviço de segurar os preços. Prova disso é que as maiores altas se concentraram em setores de serviços, em que, obviamente, não há influência da taxa de câmbio. Como destaca o IBGE, na nota que divulgou sobre o resultado do IPCA, os itens que exerceram maior pressão no resultado do ano foram planos de saúde, colégios, tarifas de ônibus urbanos e salários de empregados domésticos.
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Nos produtos de higiene pessoal, eletroeletrônicos e artigos de limpeza, três importantes segmentos, no conjunto dos preços ao consumidor, que puxaram o IPCA para baixo, o efeito do câmbio é direto. Mas esse efeito também esteve presente, ainda que menos diretamente, na boa oferta de produtos agrícolas no mercado interno e até mesmo em preços administrados, como os de energia elétrica, telefonia fixa e combustíveis.
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No caso dos alimentos, pelo desvio para o mercado interno de parte da produção normalmente destinada ao exterior, por conta dos preços desfavoráveis de exportação. Na energia e na telefonia, porque o reajuste dos contratos anuais é indexado ao IGP-M. O IGP-M é diretamente impactado pelo Índice de Preços no Atacado (IPA) e este pelo câmbio. Quando aos combustíveis, a influência do câmbio é mais do que óbvia.
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Com os 3,14% de 2006, a inflação brasileira, na América Latina, só é maior do que a chilena, que fechou o ano em torno de 2,5%. E não fica muito distante nem mesmo do mundo desenvolvido. No Reino Unido, os preços subiram 2,7% no ano e em torno de 2% tanto nos Estados Unidos como na União Européia.
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Sem dúvida, um ótimo resultado. A questão é saber se a forma como ele foi obtido é a mais eficaz e se o custo de alcançá-lo está de bom tamanho. E se, enfim, era preciso aplicar mão tão pesada.