domingo, janeiro 21, 2007

Walt Disney e a polêmica com o Zé Carioca

Rodrigo Morais,

Um papagaio que fuma charuto, veste colarinho e usa bengala faz as malas rumo a Hollywood. A legenda informa: “Walt Disney levou o papagaio.” O macaco, um dos bichos que observam a cena, comenta: “Esse papagaio vai ser um sucesso de bilheteria; fotogênico, orador e, sobretudo: impróprio para menores...” O desenho de J. Carlos, considerado por muitos o maior cartunista brasileiro, foi capa da revista Careta em outubro de 1941, pouco depois de Disney ter feito um tour pela América do Sul.
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No ano seguinte, Zé Carioca, o papagaio malandro da Vila Xurupita, surgiria no cinema em Alô Amigos, ciceroneando o Pato Donald no carnaval do Rio. Em 1944, voltaria às telas, mais uma vez ao lado de Donald, em Você já Foi à Bahia? Nos filmes, coincidentemente, o louro fuma charuto, veste colarinho e se apóia em um guarda-chuva. Claro, também usa chapéu de palhinha e gravata borboleta, além de paletó. O contato entre J. Carlos e Disney está documentado e é praticamente consenso entre pesquisadores que, de alguma forma, Zé Carioca foi inspirado pelo artista brasileiro, cujo primeiro nome também é José.
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A Seleções Reader’s Digest, revista americana publicada em todo o mundo, não teve dúvidas. Em edição de 1969, creditou a origem de Zé Carioca a J. Carlos. “Em Alô Amigos, Disney criou um novo personagem - o Zé Carioca, um papagaio inspirado num desenho do inesquecível caricaturista brasileiro J. Carlos, que Disney tentou levar para Hollywood para trabalhar em seus estúdios. O Zé Carioca de J. Carlos até hoje pode ser visto na Disneylândia.”
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Walt Disney desembarcou no Brasil com status de celebridade ao mesmo tempo em que a 2ª Guerra Mundial devastava a Europa. Veio acompanhado por uma equipe de desenhistas, músicos e escritores. No Copacabana Palace, onde se hospedaram, um estúdio foi montado. Disney, porém, não estava no Brasil apenas como homem de cinema. A exemplo de outras personalidades, foi agente da política da boa vizinhança, o modo que o governo dos Estados Unidos encontrou para reforçar sua hegemonia no continente, estreitando laços afetivos por meio da indústria cinematográfica, em um período altamente conturbado. O arquiteto da viagem foi Nelson Rockefeller, coordenador de Assuntos Interamericanos no governo Franklin Delano Roosevelt, que financiou os filmes da Disney.
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Em entrevistas a jornais da época, Disney anunciou que um dos objetivos da viagem à América do Sul era colher material para personagens e enredos. “Uma das minhas preocupações presentes é fazer coleta de material folclórico, de histórias populares, de canções e de temas musicais característicos, quer do Brasil, quer de outros países do continente, para em torno deles bordar alguns dos meus filmes”, declarou Disney, segundo reportagem de A Noite Ilustrada.
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Muitos artistas locais o assediaram em busca de uma opor tunidade na meca do cinema. Mas Disney também fez a corte. Durante exposição organizada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Getúlio Vargas, na Associação Brasileira de Imprensa, a equipe americana se impressionou com os desenhos de J. Carlos que tinham como tema o papagaio brasileiro. O episódio é relatado pelo cartunista Nássara, que participou da montagem da exposição, e foi incluído no artigo J. Carlos, O Cronista do Traço, de Isabel Lustosa, pesquisadora da Fundação Casa de Ruy Barbosa. O texto foi publicado nos Estados Unidos, na França e, no Brasil, no livro História e Linguagens.“O trabalho de J. Carlos foi o que mereceu maior atenção de Disney. Conta o caricaturista Antônio Gabriel Nássara, um dos organizadores da mostra, que ‘no dia da exposição, dois fotógrafos da equipe do Disney começaram a fotografar aqueles painéis com caricaturas. Mas nos painéis de J. Carlos, eu pude observar que eles demoraram mais, principalmente nas folhas onde estavam desenhados os papagaios’.”
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Em seguida, Disney fez pessoalmente um convite para J. Carlos trabalhar em seus estúdios. A oportunidade veio em um almoço no Itamaraty, oferecido pelo chanceler Oswaldo Aranha. “(Disney) fez questão de sentar-se ao lado de J. Carlos. Naquela ocasião, ele convidou J. Carlos a integrar-se à sua equipe nos EUA. J. Carlos não aceitou”, relata Isabel Lustosa. Também consta de seu artigo a informação de que, mais tarde, um desenho de J. Carlos teria chegado às mãos de Disney: “O desenho de um papagaio vestido com o uniforme da Força Expedicionária Brasileira, abraçado ao Pato Donald vestido de marine”. Mas, ressalva a pesquisadora, “isso nunca foi provado”.
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Um esboço desse desenho está em poder dos herdeiros de J. Carlos. Na casa de um de seus filhos, Eduardo Augusto de Brito e Cunha, é possível ver uma reprodução. Cauteloso, ele não afirma de modo definitivo que o Zé Carioca é obra de J. Carlos. “Existe a hipótese de que o Zé Carioca tenha sido uma cópia do J. Carlos. Eu não posso garantir”, disse. “O Disney deve ter copiado o desenho, mas é uma coisa que ninguém pode dar certeza.”
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Em busca da prova concreta do “Zé Carioca de J. Carlos”, a pesquisadora Tetê Amarante voou até a sede da Disney, em Burbank, na Califórnia, em 2002. Mas o desenho que teria sido modelo para o personagem não foi localizado por Tetê, neta do escritor Herman Lima, autor do primeiro livro sobre J. Carlos e da famosa História da Caricatura no Brasil, editada em 1950. “O desenho do J. Carlos é muito próximo do Zé Carioca definitivo. Mas não temos prova concreta para dizer que ele deu o desenho para o Walt Disney”, disse.
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Apesar de todas as evidências que apontam para J. Carlos, cuja família jamais reivindicou algo da Disney, há outras pessoas dispostas a isso. Marcos Sampaio Guimarães alega que foi seu avô, Félix Sampaio, o autor do personagem. Para provar o que diz, Guimarães reuniu material durante anos e elaborou um dossiê, em inglês, de 124 páginas: The Parrot Brief. Guimarães acredita que, mais de 60 anos depois do surgimento do papagaio, pode obter uma vitória sobre a Disney na Justiça americana.