sábado, fevereiro 10, 2007

Boom do etanol é a grande chance do Brasil nas Américas

Willian Waack, G1

Práticos do jeito que são, os norte-americanos colocaram diante do governo brasileiro uma proposta para repartir entre si um bolo que está crescendo depressa: o dos bio-combustíveis, principalmente álcool etanol. O que está na mesa, trazido a Brasília por um importante diplomata de Washington, não é apenas uma oportunidade comercial. É uma mudança significativa de política.

É um resultado do desastre do Iraque, se a gente quiser ver assim. Numa conversa pessoal com Nicholas Burns , o diplomata que trouxe esta semana o recado de Bush para Lula, ficou patente o esforço americano de fazer amigos numa área, a América do Sul, relegada à última das prioridades de política externa. Bush convenceu-se de que o unilateralismo não trouxe resultados -pode-se dizer que isso é conseqüência do que ele mesmo fez, mas não é essa a discussão que importa neste ponto.

A dependência americana do petróleo do Oriente Médio é tema recorrente de analistas há pelo menos vinte anos. Reduzi-la drasticamente é um dos objetivos centrais do discurso com que Bush anunciou seus planos para os últimos dois anos de governo (pode-se dizer que ele deveria ter começado isso muito antes, em vez de invadir o Iraque, mas essa é, de novo, uma outra conversa). O fato relevante é que o etanol surge não só como alternativa ao petróleo mas -que feliz coincidência- também como resposta a parte dos problemas de aquecimento global.

É curioso ver como também a megapotência age ao sabor das oportunidades, e reage de maneira sensível sobretudo à gritaria do momento -o governo Bush demonstrou ser incapaz de pensar e defender estratégias a longo prazo, sejam militares, ambientais ou de intervenção política nos principais conflitos. De novo, e quase todos os parágrafos deste texto vão terminando assim, não é esta a discussão que neste momento mais nos importa.

A que realmente conta é saber se o governo brasileiro vê essa proposta de um novo relacionamento com os Estados Unidos também como uma oportunidade de fazer valer nossos interesses ou, como tem acontecido com deprimente freqüência, apenas como mais um passo do império que é necessário combater. O perigo é o viés ideológico, que predomina em muitas das nossas formulações de política externa, prejudicar mais uma vez o que parece ser uma boa perspectiva.

Não é necessário gostar do Bush, dos americanos, do "american way of life", de Coca-Cola ou Hollywood ou qualquer bobagem desse tipo para se entender que os Estados Unidos são o país mais importante do planeta e que a afirmação dos nossos interesses passa pelo relacionamento com essa megapotência. É uma realidade objetiva e condiciona em boa parte a maneira como o Brasil trafega no cenário internacional. Isto não significa de maneira alguma subserviência ou alinhamento automático.

A "lavagem cerebral" a que o ex-embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenour, referiu-se em sua entrevista à revista "Veja" começou muito antes de um grupo tratar de impôr na formação de diplomatas do Itamaraty uma visão grotescamente retrógrada das relações internacionais em geral, e do relacionamento com os EUA em particular. Há uma noção geral bastante perniciosa de que "eles", os americanos, seriam, de alguma maneira, culpados pelo nosso próprio atraso e miséria. Portanto, qualquer gesto ou sinal vindo de Washington tem de ser dissecado em busca de alguma possível armadilha ao nosso desenvolvimento ou cerceamento de nossa soberania.

Práticos como são, os americanos que passaram esta semana por São Paulo e Brasília tomaram uma precaução. Disseram que gente como Hugo Chávez e Evo Morales interessa pouco a Washington, mais preocupada com problemas relevantes como o Oriente Médio e menos com populistas irresponsáveis esforçando-se em promover o atraso e destruir seus próprios países. Espertos como são, criaram deliberadamente duas categorias de países sul-americanos. Numa estão os que representam a busca de prosperidade e modernidade, na qual identificam o Brasil, Chile e Argentina, e com os quais querem fazer negócios e decidir coisas. Os outros, bem, para que perder muito tempo com eles?

A não ser que um elogio vindo de Washington signifique uma ofensa -e um constrangimento- aos ouvidos desconfiados dos formuladores de política externa brasileira, está aí a questão que realmente nos importa. Não é a retórica vazia -bocó e monótona, além do mais- do eixo Sul-Sul, do "socialismo bolivariano", da frente anti-imperialista. Não custa lembrar que o objetivo final de qualquer política externa é também o de garantir paz e prosperidade para a população do próprio país, e isso se consegue melhor deixando de lado a cegueira ideológica.

Deve ser horrível para terceiro-mundistas nas instâncias de poder em Brasília, depois de tudo o que falaram do "império", ainda ouvir que os Estados Unidos estão empenhados em que o Brasil seja um dos centros de liderança regional. É que os americanos tem algo que os distingue favoravelmente (e ninguém precisa gostar deles para reconhecer esse fato): preferem agir do que ficar falando, e sabem muito bem o que querem. Mas pecam pela ingenuidade: sempre acham que os outros também sabem quais são seus próprios interesses.

É o que os leva a fazer propostas ao Brasil.