segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Brasil reduz pobreza em ritmo mais lento

Antônio Gois, Bruno Lima, Folha de São Paulo

O baixo crescimento econômico no Brasil fez com que o país reduzisse a pobreza num ritmo menos intenso nos últimos anos do que a Argentina e a Venezuela, seus dois maiores parceiros econômicos no Mercosul e nações que atravessaram turbulências econômicas ou políticas recentemente.
.
Dados do Panorama Social da América Latina 2006, elaborado pela Cepal (Comissão Econômica Para a América Latina e Caribe), mostram que, de 2001 a 2005, o percentual da população urbana vivendo abaixo da linha de pobreza no Brasil variou pouco: passou de 34,1% para 32,8%.
.
Na Argentina, num período quase similar (2002 a 2005), a redução foi de 45,4% para 26%, enquanto na Venezuela ela foi de 48,6% para 37,1%.Devido a diferenças na metodologia, as taxas de pobreza da Cepal são diferentes das calculadas pelos institutos de estatísticas de cada país.
.
No caso argentino, a principal explicação para uma queda tão acentuada foi a recuperação econômica após a crise financeira. No pico das turbulências, em 2002, a taxa de 45,4% era quase o dobro da verificada em 1999 (23,7%), antes da crise.
.
No caso da Venezuela, a redução da pobreza se acentuou principalmente a partir de 2002, ano em que os enfrentamentos entre o presidente Hugo Chávez e a oposição chegaram ao auge com uma greve geral. A alta cotação do preço do petróleo, principal produto venezuelano, é apontado por especialistas como fator fundamental para o crescimento econômico do país e para o aumento do gasto social público.
.
Renato Baumann, diretor do escritório da Cepal no Brasil, diz que a tendência de queda na pobreza foi comum a quase todos os países latino-americanos, apesar de a intensidade ter variado. Em relação ao Brasil, Baumann diz que políticas como a de transferência de renda têm tido impacto positivo na renda da população mais pobre, mas, para que a pobreza caia em ritmo mais intenso, é preciso acelerar o crescimento.
.
"Crescimento faz diferença. O Brasil vem melhorando, mas precisa crescer mais para gerar mais empregos. O país está crescendo a uma taxa média de 2,6%, enquanto os vizinhos crescem o dobro ou o triplo. Venezuela e Argentina, por exemplo, têm registrado um crescimento expressivo e isso se reflete nas taxas de pobreza."
.
Para a economista Lena Lavinas, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a maior redução da pobreza nos países vizinhos reflete também a opção de Argentina e Venezuela de dar prioridade ao desenvolvimento por meio de políticas como taxa de juros baixa, câmbio desvalorizado ou controlado e até mesmo ruptura de contratos econômicos considerados desfavoráveis.
.
O economista João Sicsú, também da UFRJ, diz que, no caso da Argentina, o país está adotando um modelo de desenvolvimento parecido com o dos países da Ásia que mais crescem. "O câmbio desvalorizado num patamar competitivo e estável, a taxa de juros inferior à inflação e o investimento em infra-estrutura fizeram com que o país superasse o fundo do poço. Hoje, a Argentina só não cresce mais do que a China."
.
Potencial As opções de Argentina e Venezuela, no entanto, são criticadas por outros economistas, para os quais os dois países não têm sabido aproveitar todo o potencial de redução da pobreza proporcionado pelas invejáveis taxas de crescimento.
.
O argumento é que os altos níveis de intervenção do governo na economia - tanto Hugo Chávez quanto Néstor Kirchner adotaram, por exemplo, políticas de controle de preços- criam incertezas que afastam investimentos privados. As conseqüências são sentidas na geração de emprego e, em seguida, na velocidade do processo de redução da pobreza.
.
Economista da BCP Securities, consultoria financeira especializada em América Latina e baseada nos EUA, o argentino Walter Molano responde rápido ao questionamento sobre a causa da diferença no desempenho do Brasil com relação aos vizinhos no combate à pobreza: "Isso tem tudo a ver com o crescimento do PIB, que é muito baixo no Brasil".
.
Na opinião de Ricardo Portillo, economista da consultoria venezuelana Datanálisis, o menor ritmo de avanço no Brasil também se deve à enorme dimensão do país e ao fato de a pobreza ser um problema estrutural. Ele lembra que, apesar de mais lento, o processo brasileiro tem sido mais constante. "Algo mais significativo só aconteceria no Brasil com um ritmo de crescimento no nível da China."