Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
O IBGE revelou que o desemprego, em vez de recuar, avançou em 2006, atingindo a escala de 10 por cento sobre a mão-de-obra ativa brasileira, abrangendo por igual os que trabalham com carteira assinada e os sem vínculo de emprego.
Socialmente a diferença da condição não importa. O que importa é que há hoje, no País, 9 milhões de desempregados, já que a força de trabalho brasileira é composta de 90 milhões de pessoas, quase a metade da população. Dez por cento é uma taxa muito alta, já que o patamar, tão aceitável quanto inevitável, deve ser no máximo de 5 por cento.
Estamos no dobro deste limite. Os reflexos são os piores possíveis. A começar pela favelização das grandes cidades. No Rio, favelas da Zona Sul, especialmente na Gávea, estão se aproximando do muro de residências de luxo. O anel vai se fechando.
Em 2005, segundo o mesmo IBGE, o desemprego era de 9,8 por cento. Cresceu dois décimos. A diferença aparentemente não seria de porte se não tivéssemos o índice demográfico anual de 1,3 por cento. Lula herdou de Fernando Henrique um desemprego de 12 por cento, mais alto ainda. Não conseguiu diminuí-lo concretamente. Não em função da relatividade exposta, mas sim em face do aumento da população.
O número de habitantes, ao longo dos últimos quatro anos, cresceu muito mais do que a queda do desemprego. Levando-se em conta, principalmente, a passagem de 2005 para 2006, verifica-se que a política econômica que alcançou um resultado excepcional nas exportações e no saldo da balança comercial (47 bilhões de dólares) não produziu reflexos positivos em favor dos que vivem de seu trabalho.
Tanto assim que o desemprego permaneceu como um fantasma social atemorizando a todos nós. Deve-se levar em conta inclusive que dois terços do desemprego, segundo também o IBGE, localizam-se na faixa etária de 25 a 49 anos, exatamente aqueles que possuem sobre si maior peso de encargos familiares, como é natural. O desemprego gera uma angústia enorme. Uma sensação de imobilidade que desestabiliza qualquer um. A política do governo Lula, para repetir o que disse Médici há mais de 30 anos, fez com que a economia fosse bem, mas manteve o povo vivendo mal. O que fazer?
Mudar. Sem dúvida mudar. Pois se o modelo atual não foi capaz de se encontrar com o ser humano, sobretudo no que tem de mais legítimo, o direito de trabalhar, tem que ser redirecionado, como dizem os tecnocratas. Aliás, responsáveis pelo insucesso. Representa uma conseqüência da concentração de renda, cada vez maior no País. O governo financia investimentos particulares através da Taxa de Juros de Longo Prazo, na escala de 6,7 por cento a/a.
Pelo mesmo período, paga juros de 13 por cento aos bancos pela rolagem da dívida interna. Quer dizer, quem recebe um financiamento empresarial à base de 6,7 por cento, se der um passeio no mercado financeiro, enquanto durar o giro recebe 13 por cento. Um negócio fantástico, lucro absoluto sem o menor risco. Mas a questão dos juros não se esgota aí. Que dizer do comércio e da rede bancária que cobram juros de 95 por cento ao ano pelos créditos que concedem a pessoas físicas? Como o Banco Central vê este ângulo da questão social? Simplesmente não vê.
O levantamento sócio-econômico divulgado pelo IBGE, se de um lado acentuou o crescimento do desemprego, de outro apontou o aumento do rendimento do trabalho, de 4 por cento nos últimos doze meses. É um equívoco. Fundamental levar-se em conta que a taxa inflacionária do exercício passado, segundo o mesmo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, foi de 3,6 por cento. Logo, sob este prisma de análise, a evolução teria sido de 0,4 por cento, quatro décimos portanto. Mas não foi nem isto.
E o crescimento demográfico? Se foi de 1,3 por cento, na realidade não houve avanço e sim redução de renda do trabalho da ordem de 0,9 por cento. Não podemos nos deixar levar pelos números que se colocam diante de nós sem analisá-los comparativamente. Sem comparar pontos em confronto não se consegue logicamente analisar nada. De fato, a economia brasileira andou para frente no ano passado. A população andou para trás.
Como não existe débito sem crédito, a parte da evolução ficou com alguém. Não ficou com os trabalhadores. Ficou sim com bancos e banqueiros. Aliás, como vem ocorrendo desde FHC. O conservadorismo vai vencendo todas as batalhas. Usa-se o marketing para disfarçar as aparências, não o conteúdo. O conteúdo aí está com reflexos negativos na sociedade. Sem emprego e salário, sustento sempre, não se avança, não se vai a lugar algum. Pois atrás de tudo que se produzir estará eternamente o ser humano. Para ele é que as políticas públicas devem ser dirigidas.
Em nosso País, não estão sendo, no sentido mais amplo. Contraditoriamente, uma minoria absorve o êxito do esforço da maioria. A renda se concentra. Sem distribuição de renda, o programa social é impossível. É preciso mudar. Para melhor.
O IBGE revelou que o desemprego, em vez de recuar, avançou em 2006, atingindo a escala de 10 por cento sobre a mão-de-obra ativa brasileira, abrangendo por igual os que trabalham com carteira assinada e os sem vínculo de emprego.
Socialmente a diferença da condição não importa. O que importa é que há hoje, no País, 9 milhões de desempregados, já que a força de trabalho brasileira é composta de 90 milhões de pessoas, quase a metade da população. Dez por cento é uma taxa muito alta, já que o patamar, tão aceitável quanto inevitável, deve ser no máximo de 5 por cento.
Estamos no dobro deste limite. Os reflexos são os piores possíveis. A começar pela favelização das grandes cidades. No Rio, favelas da Zona Sul, especialmente na Gávea, estão se aproximando do muro de residências de luxo. O anel vai se fechando.
Em 2005, segundo o mesmo IBGE, o desemprego era de 9,8 por cento. Cresceu dois décimos. A diferença aparentemente não seria de porte se não tivéssemos o índice demográfico anual de 1,3 por cento. Lula herdou de Fernando Henrique um desemprego de 12 por cento, mais alto ainda. Não conseguiu diminuí-lo concretamente. Não em função da relatividade exposta, mas sim em face do aumento da população.
O número de habitantes, ao longo dos últimos quatro anos, cresceu muito mais do que a queda do desemprego. Levando-se em conta, principalmente, a passagem de 2005 para 2006, verifica-se que a política econômica que alcançou um resultado excepcional nas exportações e no saldo da balança comercial (47 bilhões de dólares) não produziu reflexos positivos em favor dos que vivem de seu trabalho.
Tanto assim que o desemprego permaneceu como um fantasma social atemorizando a todos nós. Deve-se levar em conta inclusive que dois terços do desemprego, segundo também o IBGE, localizam-se na faixa etária de 25 a 49 anos, exatamente aqueles que possuem sobre si maior peso de encargos familiares, como é natural. O desemprego gera uma angústia enorme. Uma sensação de imobilidade que desestabiliza qualquer um. A política do governo Lula, para repetir o que disse Médici há mais de 30 anos, fez com que a economia fosse bem, mas manteve o povo vivendo mal. O que fazer?
Mudar. Sem dúvida mudar. Pois se o modelo atual não foi capaz de se encontrar com o ser humano, sobretudo no que tem de mais legítimo, o direito de trabalhar, tem que ser redirecionado, como dizem os tecnocratas. Aliás, responsáveis pelo insucesso. Representa uma conseqüência da concentração de renda, cada vez maior no País. O governo financia investimentos particulares através da Taxa de Juros de Longo Prazo, na escala de 6,7 por cento a/a.
Pelo mesmo período, paga juros de 13 por cento aos bancos pela rolagem da dívida interna. Quer dizer, quem recebe um financiamento empresarial à base de 6,7 por cento, se der um passeio no mercado financeiro, enquanto durar o giro recebe 13 por cento. Um negócio fantástico, lucro absoluto sem o menor risco. Mas a questão dos juros não se esgota aí. Que dizer do comércio e da rede bancária que cobram juros de 95 por cento ao ano pelos créditos que concedem a pessoas físicas? Como o Banco Central vê este ângulo da questão social? Simplesmente não vê.
O levantamento sócio-econômico divulgado pelo IBGE, se de um lado acentuou o crescimento do desemprego, de outro apontou o aumento do rendimento do trabalho, de 4 por cento nos últimos doze meses. É um equívoco. Fundamental levar-se em conta que a taxa inflacionária do exercício passado, segundo o mesmo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, foi de 3,6 por cento. Logo, sob este prisma de análise, a evolução teria sido de 0,4 por cento, quatro décimos portanto. Mas não foi nem isto.
E o crescimento demográfico? Se foi de 1,3 por cento, na realidade não houve avanço e sim redução de renda do trabalho da ordem de 0,9 por cento. Não podemos nos deixar levar pelos números que se colocam diante de nós sem analisá-los comparativamente. Sem comparar pontos em confronto não se consegue logicamente analisar nada. De fato, a economia brasileira andou para frente no ano passado. A população andou para trás.
Como não existe débito sem crédito, a parte da evolução ficou com alguém. Não ficou com os trabalhadores. Ficou sim com bancos e banqueiros. Aliás, como vem ocorrendo desde FHC. O conservadorismo vai vencendo todas as batalhas. Usa-se o marketing para disfarçar as aparências, não o conteúdo. O conteúdo aí está com reflexos negativos na sociedade. Sem emprego e salário, sustento sempre, não se avança, não se vai a lugar algum. Pois atrás de tudo que se produzir estará eternamente o ser humano. Para ele é que as políticas públicas devem ser dirigidas.
Em nosso País, não estão sendo, no sentido mais amplo. Contraditoriamente, uma minoria absorve o êxito do esforço da maioria. A renda se concentra. Sem distribuição de renda, o programa social é impossível. É preciso mudar. Para melhor.