sábado, fevereiro 03, 2007

Um mau começo na Câmara

Editorial do Jornal do Brasil
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As cenas e personagens radiografados no primeiro dia da nova legislatura do Congresso, somados ao enredo de traições e reviravoltas na eleição da presidência da Câmara, informam ao país os tempos difíceis que se avizinham. Foi um mau começo - tanto para um Parlamento que tem a obrigação de iluminar as sombras deixadas pela pior legislatura da história quanto para o Palácio do Planalto, que instalou o balcão de cargos, verbas e prestígio para os deputados que apoiassem Arlindo Chinaglia, o vitorioso petista.
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O pessimismo aqui sublinhado justifica-se porque os maus presságios ultrapassam os limites das cenas incomuns assistidas na quinta-feira. Foi o caso da dança de um deputado, destinada a "recuperar a imagem" da Casa, do desfile de alguns novatos curiosos e do renascimento de personagens defenestrados pelo mensalão e outras traquinagens, aí incluídos Roberto Jefferson, José Genoino, Ricardo Berzoini, Professor Luizinho, José Mentor, Paulo Maluf e Fernando Collor.
Mas passemos. Os temores estendem-se muito mais pelas fraturas decorrentes da disputa da Mesa Diretora da Câmara. A vitória apertada de Chinaglia em segunda votação - 261 votos contra 243 de Aldo Rebelo, do PCdoB - escancara a cisão da base de apoio do governo. Em tese, o Palácio do Planalto terá anos de tranqüilidade no Congresso. Conta com o apoio de 11 partidos, num total de 321 deputados, número que lhe garante folga até mesmo para a aprovação de emendas constitucionais.
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Em tese, insista-se. O segundo governo da coalizão comandada pelo PT estreou com uma colisão, cujo saldo de feridos ainda é incerto. A tarefa imediata do Planalto é superar suas divisões recentes. Restará ainda a fatura cobrada pelos apoiadores. Seja na votação do PAC, seja na aprovação das reformas, haverá pressão por liberação de emendas ao Orçamento em troca do votos, atendimento a pleitos individuais ou nomeação de afilhados políticos para cargos no governo e em estatais.
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Tais ingredientes, é verdade, costumam integrar a receita das negociações no Congresso. Mas nada ajudam as primeiras declarações do novo presidente da Câmara. Antes mesmo da votação, Chinaglia emitiu sinais evidentes de que pretende enterrar os escândalos que envolveram o Planalto e parlamentares governistas. "A página da crise está virada, é da legislatura passada", disse. Errado. Esse é um problema presente. Se cumprir a promessa, Chinaglia decretará a vitória do protecionismo à corporação parlamentar. Debilitará o projeto de recuperação da confiança na Câmara.
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Mas Chinaglia foi adiante. Assegurou defender os interesses da Casa frente aos ataques, para ele "injustos", sofridos pela instituição, responsáveis pela desmoralização do Congresso. Para o novo presidente, o problema são as críticas e não a rapinagem explícita dos últimos dois anos - como se o abalo moral não nascesse do fisiologismo, do corporativismo e das barganhas.
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Também não ajuda uma legislatura iniciada com a oposição debilitada. O PSDB, a principal força oposicionista, sai da disputa conflagrado por rachaduras internas. Na eleição para a presidência do Senado, suspeita-se de que o partido contribuiu para a fragorosa derrota de José Agripino (PFL), que teve menos votos do que o número de tucanos e pefelistas. Na Câmara, o PSDB ajudou a dar a Chinaglia a musculatura necessária para vencer. Graças a interesses individuais e negociações por vantagens de ocasião, a maioria tucana socorreu o Planalto e fragilizou a própria sigla.
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Eis porque os prognósticos são desabonadores. Uma coalizão dividida, uma oposição frágil e um forte odor de corporativismo resultam numa combinação tenebrosa. Não dará em boa coisa.