sexta-feira, fevereiro 09, 2007

José Dirceu, Presidente

por Denis Rosenfield, na Folha
.
PT, O retorno. Talvez essa fórmula melhor ilustre a vitória do deputado Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara dos Deputados. Acabrunhado pelas sucessivas crises éticas que o corroeram, o partido descobriu na vitória de Lula a ocasião de reafirmar suas posições históricas, considerando que as urnas o tinham absolvido moralmente. Personagens que se destacaram nos casos mensalão e sanguessuga, entre outros, voltaram a circular livremente, participando ativamente da eleição de seu companheiro. Na crise, o partido cerra fileiras, elegendo um dos seus. Seguro de si, recomeça as suas brigas pelo poder.
.
Nesse contexto se inserem as recentes notícias e declarações relativas à anistia do ex-deputado José Dirceu.
.
Assinale-se que elas vêm precedidas e acompanhadas de manifestações políticas que sinalizam uma inflexão à esquerda das posições partidárias.
.
Chinaglia representa a volta ao poder de um setor do partido que esteve alijado por questões morais. Nunca é demais lembrar que a comissão de ética do partido não julgou os companheiros envolvidos nos diferentes escândalos. Na verdade, ela está fechada para reformas. Duração: indefinida.
.
Nesse sentido, o novo presidente da Câmara conseguiu aglutinar em torno de si várias tendências que comungam das mesmas posições, como as defesas do ditador Fidel Castro, do novo ditador Chávez -agora reunindo em suas mãos os Poderes Executivo e Legislativo- e do projeto de ditador Evo Morales. Pensam, com nuances, que o Brasil deveria seguir o mesmo caminho, instaurando uma sociedade socialista, dita solidária, mas, de fato, autoritária ou totalitária.
.
José Dirceu sabe como poucos dentro do partido navegar nessas águas. Nada acontece ali acidentalmente, embora os desmentidos façam parte desse processo.
.
Ocorre que a luta pela sucessão de Lula já está aberta, sendo seus momentos preliminares as discussões relativas ao próximo presidente do partido e a questões programáticas que se delineiam nos encontros e congressos. José Dirceu, que seria candidato natural do PT à Presidência da República, teve, com sua cassação, o caminho barrado. No entanto, ele pode abrir uma nova via se conseguir uma anistia política, entendida também como absolvição moral.
.
Mas, para que seja politicamente válida -e não só juridicamente-, ela deveria vir acompanhada de uma iniciativa "popular", que deveria reunir 1,5 milhão de eleitores. A cifra não tem nada de exorbitante, pois o PT, a CUT, o MST e a UNE conseguiriam, em conjunto, alcançar facilmente o número, podendo até ultrapassá-lo.
.
Tal união se faria em torno das bandeiras esquerdistas históricas do partido que, assim, estaria legitimado para disputar, com essa plataforma, as eleições presidenciais de 2010, tendo em Dirceu o seu representante. Um político "absolvido de uma injustiça" se alçaria, de uma forma "popular", a virtual candidato presidencial.
.
Logo ele assumiria uma atitude mais à esquerda, defendendo, como já vem fazendo, Chávez e MST e criticando o superávit primário e a autonomia operacional do Banco Central.
.
Ou seja, ele voltaria seu discurso para aquilo que o partido considera os símbolos -positivos- do socialismo e os -negativos- do capitalismo, em sua linguagem, do "neoliberalismo".
.
O aval do partido já começou a ser dado. Marco Aurélio Garcia o defende abertamente, sendo uma pessoa que goza de prestígio partidário. O mesmo faz o presidente do partido, Ricardo Berzoini, ligado à corrente sindicalista que, assim, reconquistaria suas posições de poder, abaladas pelo envolvimento de um número significativo de seus membros nos escândalos do primeiro mandato.
.
O deputado Vaccarezza, em recente entrevista a esta Folha, fez questão de demarcar a independência do PT em relação a Lula, como se um novo processo estivesse se iniciando. Procuram, dessa maneira, enterrar definitivamente os escândalos éticos que marcaram o primeiro mandato presidencial, com o objetivo de politizar os desvios de conduta do partido.
.
Reverter a cassação de José Dirceu se inscreve nesse contexto. Se ela for bem-sucedida, ele próprio poderá ser o próximo candidato petista. O ministro Tarso Genro não se engana quando centra suas baterias a favor de uma refundação do partido, porque seu objetivo consiste em barrar esse movimento, se colocando, também ele, como uma alternativa partidária para as próximas eleições.