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No final de 2006, dia 25, a Folha SP publicou matéria com o chamativo título “Remessa de lucro triplica no governo Lula”. Há que esclarecer as coisas.
No final de 2006, dia 25, a Folha SP publicou matéria com o chamativo título “Remessa de lucro triplica no governo Lula”. Há que esclarecer as coisas.
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A remessa oficial de lucros para o exterior continua crescendo muito sob Lula, como crescera sob a tucanagem, certamente agradada pela idéia enganosa, transmitida por aquele jornal, de um salto enorme na comparação entre 2006 e 2002.Conforme a Tabela 07, Capítulo V, do Boletim do Banco Central, publicado pouco antes da reportagem da Folha, a remessa líquida de rendas (deduzidas as transferidas para o Brasil) totalizou US$ 26,0 bilhões em 2005 e US$ 18,3 bilhões em 2002. Isso implica crescimento de 42%. Portanto, não houve sequer duplicação.Não há como comparar com 2006, porque só há dados para 10 meses, de janeiro a outubro. Em relação ao mesmo período de 2005, a elevação é pequena: 3,6%.
A remessa oficial de lucros para o exterior continua crescendo muito sob Lula, como crescera sob a tucanagem, certamente agradada pela idéia enganosa, transmitida por aquele jornal, de um salto enorme na comparação entre 2006 e 2002.Conforme a Tabela 07, Capítulo V, do Boletim do Banco Central, publicado pouco antes da reportagem da Folha, a remessa líquida de rendas (deduzidas as transferidas para o Brasil) totalizou US$ 26,0 bilhões em 2005 e US$ 18,3 bilhões em 2002. Isso implica crescimento de 42%. Portanto, não houve sequer duplicação.Não há como comparar com 2006, porque só há dados para 10 meses, de janeiro a outubro. Em relação ao mesmo período de 2005, a elevação é pequena: 3,6%.
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O lucros remetidos por investimentos diretos estrangeiros (uma parte do total das rendas) ascenderam a US$ 10,3 bilhões em 2005, havendo dobrado em relação aos US$ 5 bilhões de 2002, mas não triplicado. Atenção: em 1998 eles chegaram a US$ 8,6 bilhões, cifra inferior à de 2005 em só 20%.
O lucros remetidos por investimentos diretos estrangeiros (uma parte do total das rendas) ascenderam a US$ 10,3 bilhões em 2005, havendo dobrado em relação aos US$ 5 bilhões de 2002, mas não triplicado. Atenção: em 1998 eles chegaram a US$ 8,6 bilhões, cifra inferior à de 2005 em só 20%.
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Uma parte da explicação está no efeito da taxa de câmbio, agora favorável às remessas ao exterior, como ocorreu em 1998, quando não só o real estava valorizado, mas também já se prenunciava sua débâcle, manifestada plenamente em 1999. Sob os petistas, o real revalorizou-se, o que facilita as grandes transferências oficiais, em contraste com 2002, quando o real chegou a cair a R$ 3,60 por dólar.
Uma parte da explicação está no efeito da taxa de câmbio, agora favorável às remessas ao exterior, como ocorreu em 1998, quando não só o real estava valorizado, mas também já se prenunciava sua débâcle, manifestada plenamente em 1999. Sob os petistas, o real revalorizou-se, o que facilita as grandes transferências oficiais, em contraste com 2002, quando o real chegou a cair a R$ 3,60 por dólar.
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A outra rubrica principal do item “rendas” são as remessas dos lucros dos investimentos em carteira, i.e., das participações acionárias. Essa rubrica registra aumento de US$ 8,4 bilhões em 2002 para US$ 11,8 bilhões em 2005. O incremento ficará, pois, no máximo, em torno de 40%, uma vez que houve redução nos 10 primeiros meses de 2006.
A outra rubrica principal do item “rendas” são as remessas dos lucros dos investimentos em carteira, i.e., das participações acionárias. Essa rubrica registra aumento de US$ 8,4 bilhões em 2002 para US$ 11,8 bilhões em 2005. O incremento ficará, pois, no máximo, em torno de 40%, uma vez que houve redução nos 10 primeiros meses de 2006.
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São cifras impressionantes, mas o quadro piora sensivelmente se elas forem postas em contexto. Para começar, os lucros dos concentradores econômicos e financeiros estão em crescimento acelerado, enquanto o PIB por habitante está estagnado, há anos.
São cifras impressionantes, mas o quadro piora sensivelmente se elas forem postas em contexto. Para começar, os lucros dos concentradores econômicos e financeiros estão em crescimento acelerado, enquanto o PIB por habitante está estagnado, há anos.
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Esse passo de caranguejo acontece apesar do expressivo crescimento das exportações, proveniente da expansão da demanda mundial por bens intensivos de recursos naturais, como produtos siderúrgicos, minérios e agronegócio.Por que? Primeiro, porque as exportações são controladas por grupos concentradores - inclusive tradings - cujos lucros, em grande parte, vão para o exterior, pouco sendo investido na produção para uso local, mesmo porque pouquíssimo toca aos salários, e, assim, míngua a demanda interna.
Esse passo de caranguejo acontece apesar do expressivo crescimento das exportações, proveniente da expansão da demanda mundial por bens intensivos de recursos naturais, como produtos siderúrgicos, minérios e agronegócio.Por que? Primeiro, porque as exportações são controladas por grupos concentradores - inclusive tradings - cujos lucros, em grande parte, vão para o exterior, pouco sendo investido na produção para uso local, mesmo porque pouquíssimo toca aos salários, e, assim, míngua a demanda interna.
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Esses fatores decorrem em parte das famigeradas políticas monetária e fiscal, as quais com eles interagem, tornando-os ainda mais depressivos. Elas privilegiam o serviço da dívida pública, formada pela capitalização dos próprios juros, em função das absurdas taxas impostas pela corrupção associada ao poder concentrado, forçando a prevalência dos juros abusivos em toda a economia.Os beneficiários são grandes empresas, quase todas transnacionais, inclusive bancos. Daí o crescimento dos lucros em taxa muito superior à da economia como um todo. Lógico que alguém está perdendo: 99,9% dos brasileiros e, em especial, os menos de 15% que constituem a classe média, com rendimentos em queda e impostos em alta.
Esses fatores decorrem em parte das famigeradas políticas monetária e fiscal, as quais com eles interagem, tornando-os ainda mais depressivos. Elas privilegiam o serviço da dívida pública, formada pela capitalização dos próprios juros, em função das absurdas taxas impostas pela corrupção associada ao poder concentrado, forçando a prevalência dos juros abusivos em toda a economia.Os beneficiários são grandes empresas, quase todas transnacionais, inclusive bancos. Daí o crescimento dos lucros em taxa muito superior à da economia como um todo. Lógico que alguém está perdendo: 99,9% dos brasileiros e, em especial, os menos de 15% que constituem a classe média, com rendimentos em queda e impostos em alta.
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Não é demais lembrar que as remessas oficiais de lucros são apenas a ponta do iceberg. O iceberg é o total de mais de uma dezena de modalidades de transferências praticadas pelas transnacionais e descritas no meu livro, “Globalização versus Desenvolvimento”. Essas são feitas por meio dos preços de exportação e de importação - que ninguém controla, muito menos as “autoridades”, dissuadidas até pela OMC - e através de despesas a título de “serviços”, em favor das matrizes e de empresas próprias ou coligadas no exterior.
Não é demais lembrar que as remessas oficiais de lucros são apenas a ponta do iceberg. O iceberg é o total de mais de uma dezena de modalidades de transferências praticadas pelas transnacionais e descritas no meu livro, “Globalização versus Desenvolvimento”. Essas são feitas por meio dos preços de exportação e de importação - que ninguém controla, muito menos as “autoridades”, dissuadidas até pela OMC - e através de despesas a título de “serviços”, em favor das matrizes e de empresas próprias ou coligadas no exterior.
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Apesar dos imensos prejuízos que causa ao País, o capital estrangeiro tem tido total favorecimento do governo, pois sempre foi subsidiado e goza de tratamento fiscal privilegiado, situação acentuada com as isenções propiciadas pelo governo Lula do IR e da CPMF nas remessas ao exterior.
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Em suma, para os residentes no País, chumbo grosso. Para os não-residentes, todas as benesses. Parte dos ganhos do “capital estrangeiro” pertence à minoria de brasileiros que mandou centenas de bilhões de dólares para o exterior, graças a permissividade do Banco Central, desde a regulamentação das contas CC-5, no “governo” de FHC.
Em suma, para os residentes no País, chumbo grosso. Para os não-residentes, todas as benesses. Parte dos ganhos do “capital estrangeiro” pertence à minoria de brasileiros que mandou centenas de bilhões de dólares para o exterior, graças a permissividade do Banco Central, desde a regulamentação das contas CC-5, no “governo” de FHC.
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(*) Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”.
(*) Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”.