sexta-feira, março 09, 2007

De como damos sopa ao azar

Demóstenes Torres (*), Blog do Noblat

Em abril de 2003 o presidente Lula lançou o Plano Nacional de Turismo. Com a modéstia habitual, à época qualificou a medida não como uma semente lançada ao solo fértil de que tanto se admirou Pero Vaz de Caminha. Ali estava sendo plantada uma árvore pronta para dar frutos. No horizonte imediato, o Plano seria capaz de nos igualar a França e a Espanha, países que mais faturam com turismo no mundo. O presidente tinha uma idéia que o Plano faria o País tão atrativo que chegou a mencionar o que cidadão que fosse passear em Granada ou Madrid daria uma escapadinha e desceria no aeroporto do Galeão. Pensei comigo, por quê não inserir no roteiro Guriatã?

Lula enxergava 2007, data final de vigência da iniciativa. Aqui estamos e na semana passada o Fórum Econômico Mundial divulgou o Índice de Competitividade para Viagem e Turismo. Dos 124 países analisados, o Brasil ocupou a 59ª posição, apesar do, reconheça-se, competente ministro Mares Guia. Um dos quesitos avaliados que mais contribuíram para jogar o país na lona foi justamente a falta de estratégia para o setor. Em relação à infra-estrutura de transporte, o Brasil é o pior avaliado. Até Madagascar tem estradas melhores do que as nacionais. Quando o estudo analisa o critério de segurança, o País despenca na tabela e se posiciona na 90ª posição.

O Plano Nacional de Turismo não foi além do papel e, como chegou ao fim, já tem um sucessor. Turismo no Brasil: 2007-2010 é o nome da iniciativa fantástica que dará suporte às perspectivas auspiciosas do próximo quadriênio. Condições não faltam para isso. O nosso sistema de tráfego aéreo é um estímulo confortável para o europeu ou o asiático fazer o turismo de aeroporto. O dinamarquês que esperava passar pela experiência fantástica de dormir em plena selva Amazônica terá a oportunidade de vagar a noite na sala de embarque. Planejar é essencial, mas nada como um choque de realidade para entender que desenhar cenários não significa alterar uma tendência.

O Brasil tem um produto turístico interessante devido à sua enorme diversidade ambiental e cultural, mas está longe de oferecer o equipamento necessário para torná-lo efetivamente atrativo. Tanto que o país patina há pelo menos uma década na casa dos 4 milhões de visitantes. Estou falando do enorme risco do cidadão ser vítima de latrocínio logo depois de desembarcar no País. Da possibilidade de ser contaminado por coliformes em um delicioso banho de mar. Da temeridade de um estrangeiro trafegar pelas rodovias. Da falta de preparação da mão de obra. Do lixo a céu aberto e do aparelho estatal corrompido. Tem samba, mas tem também arrastão e uma estrutura de serviços desorganizada pela falta de plano diretor.

Ninguém paga caro para sofrer, para ter direitos ignorados, para ser enganado, para embarcar rumo ao paraíso em um bateau mouche ou visitar um sítio do Patrimônio Histórico da Humanidade e encontrar uma paisagem decadente. Escapa da esfera do pretensioso e trafega pela arrogância, quando um presidente fala de árvore que já nasce frondosa e com frutos pendentes às pencas quando o País é cheio de terra arrasada em todos os setores. Não existe produto turístico acabado sem saneamento, sem política de conservação ambiental, sem um sistema de informação eficiente, sem segurança pública, sem capacidade de mobilização em caso de catástrofe, sem serviços adequados e infra-estrutura competente.

O Brasil não possui nada disso, mas tem um plano. Um não. Dezenas deles e slogans confortáveis para dar caráter publicitário às iniciativas simuladas. E nada como melhorar um programa de governo por intermédio da mudança de nomenclatura. Veja que apesar de ter recursos naturais fantásticos, o País possui uma avaliação péssima do Fórum Econômico Mundial quanto às políticas de conservação do meio-ambiente, o que o rebaixa neste quesito para a 75ª posição. É tudo muito lindo e concupiscente, no entanto impróprio ao banho, menores impunes matam para roubar, o sistema do tráfego aéreo é uma temeridade, as instituições são corrompidas e o usual por aqui é ir reclamar ao bispo. Podíamos estar na rota do turismo mundial. Preferimos dar mais uma colher de sopa ao azar.

(*) Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (PD-GO)