sexta-feira, março 09, 2007

Direitos humanos e antiimperialismo vira-lata

Reinaldo Azevedo

O Departamento de Estado dos EUA divulgou um relatório sobre violação de direitos humanos mundo afora. Foi mal recebido pelos nossos antiimperialistas. O cineasta Arnaldo Jabor explicou por quê: os americanos não se incluíram. Sentaram em cima do próprio rabo. E o Iraque? E os prisioneiros de Guantánamo? A própria secretária Condoleeza Rice reconheceu que seu país não é perfeito, mas disse: “Dentro do nosso sistema, acabamos prestando contas dos nossos atos”. E é verdade. Um soldado americano acaba de ser condenado a nada menos de 100 anos de prisão por abusos praticados no Iraque. Ah, não duvidem: ele vai morrer na cadeia. Mas Jabor não se conformou, não. Comparou George W. Bush a um terrorista.
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O Brasil está na lista, o que deixou o Itamaraty irritado, levando-o a rejeitar o relatório. Vejam só os absurdos: os americanos se atrevem a dizer que há tortura nas cadeias brasileiras, que a polícia por aqui mata a três por quatro, que os direitos humanos estão sendo ameaçados pelo crime organizado e que os violadores, na maioria dos casos, ficam impunes. Não é mesmo um acinte? Uma provocação? Não foi só Jabor, não. Eu também fiquei revoltadíssimo. Quem esses americanos pensam que são para nos dizer essas coisas?
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Primeiro eles precisam dar um tratamento humano aos terroristas em Guantánamo para que a gente possa fazer o mesmo no Brasil tanto com os homens comuns como com os presos comuns, não é mesmo?O que falta ao Brasil? Ora, que a gente saiba odiar com mais determinação George. W. Bush naturalmente. E depois tem uma coisa: cada um com os seus problemas, não é mesmo? Dos nossos torturados, cuidamos nós.É por isso que o Itamaraty, num ato de clarividência, respondeu assim:

“Atitudes e avaliações unilaterais sobre tais temas são inaceitáveis, pois contrariam os princípios da universalidade e da não-seletividade dos direitos humanos". É isso aí. O complexo de vira-lata, a que já me referi hoje, também rosna. Os altivos vão mais longe: “O governo brasileiro reafirma que não reconhece a legitimidade de relatórios elaborados unilateralmente por países, segundo critérios domésticos, muitas vezes de inspiração política". Excelente!

É óbvio que Bush teme a potência brasileira e manipula os dados só para queimar o nosso fIlme.
É bem verdade que o relatório critica, por exemplo, os governos aliados (dos americanos) do Iraque (proximidade com uma milícia xiita terrorista) e do Paquistão (prisões arbitrárias e desaparecimentos). Mas vejam só: o mesmo vale para esses países. Ou os EUA tratam com mais respeito os terroristas ou estarão impedidos de pedir tratamento mais digno, mundo afora, a quem não é terrorista.
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O que sempre me espantou nos antiimperialistas é o seu humanismo inspirado.