segunda-feira, março 05, 2007

O gás não deu para a saída

Villas-Bôas Corrêa, Coisas da Política, Jornal do Brasil

A campanha da reeleição do presidente Lula, nos altos e raros sustos, bateu na tecla do bis do maior governo de todos os tempos, faturou os votos dos 11 milhões de Bolsas Família, de efeitos devastadores principalmente no Norte e Nordeste, e distribuiu promessas em generosidade perdulária, devidamente reciclada para o gosto de cada nicho de votos. E ainda recebeu o agrado involuntário da calamitosa incompetência dos marqueteiros do esquecido candidato da oposição, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alkmin.

Na corrida paralela para a eleição de dois terços dos senadores e da totalidade dos 513 deputados federais, a desmoralização do Legislativo - corroído pela temporada recordista de escândalos no festival de roubalheira do mensalão, do caixa 2, das ambulâncias superfaturadas da lambança dos sanguessugas, dos acertos imorais entre partidos para a absolvição dos acusados pela tolerância do plenário - impôs o mote da restauração da respeitabilidade do mais democráticos dos poderes, com vagas promessas de uma vassourada na faxina ética. Com dois meses do segundo mandato presidencial e de funcionamento do Congresso já deu para perceber que o gás durou pouco, não deu para a saída na acomodação de interesses e das tímidas lideranças nos dois poderes. No Congresso, a feira de ilusões foi desmontada em poucos dias, sobrando nas barracas a xepa de uma despudorada acomodação no balaio das mordomias, vantagens, benefícios e demais mutretas da inesgotável gula dos representantes do povo.

A sabedoria dos cabelos brancos dos senadores contorna as pedras no caminho dos peritos na esperteza de raspar o prato sem fazer ruído. A reeleição do presidente Renan Calheiros carimbou a continuidade, regada pela ênfase com os compromissos éticos. Na agitação da Câmara, com altos índices de renovação, a bagunça dos partidos, o desmantelamento da bancada do PT, uma pobre legenda rejeitada pelo seu líder supremo; os arrancos para enganar o auditório empurraram o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência, expelindo o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que sonhava com mais dois anos no trono.

Das promessas moralizadoras, da cruzada ética sobrou o cisco que se varre para debaixo do tapete. O estilo do novo presidente de pavio curto não acende as fogueiras para a queima das mordomias. Depois do saçarico no salão, a reforma política das juras de Lula e dos cruzados parlamentares, aprovada pelo Senado em 2003, depois de três anos de sono profundo, foi incluída na pauta de votações desta semana, em gesto ousado do presidente da Câmara, que surpreendeu o plenário. Mas a pauta, francamente raspa em meia dúzia de obviedades e de tímidas medidas necessárias, como a fidelidade partidária para acabar com o troca-troca de partidos na feira livre em que o governo arremata lotes de deputados para compor a sua base de apoio parlamentar, o discutível financiamento público de campanhas eleitorais, o fim das coligações em eleições proporcionais, o voto em lista fechada organizada pelos partidos. A assuada na sala desvia a atenção para os acertos na cozinha. As maquinações nas sombras do fundo do quintal bloquearam o simples debate sobre a orgia das mordomias que mancham o mandato parlamentar. Na verba indenizatória de R$ 15 mil mensais - disfarce de salário indireto - ninguém toca. Nem na verba de gabinete: um primor de impudência de R$ 50.815 para a contratação de assessores para os gabinetes privativos dos deputados e de R$ 95 mil para a contratação de seis assessores técnicos, além de seis assessores parlamentares dos 81 senadores. A temporada de restauração da ética no Congresso acabou com o carnaval.