Por J. R. Guzzo, Vida Real, EXAME
Até outro dia, muito pouca gente neste país tinha ouvido falar da ministra Matilde Ribeiro e menos ainda de seu ministério -- algo que leva o torturado nome de Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ou Seppir, como os burocratas gostam de abreviar no papelório oficial que circula em Brasília. É uma dessas coisas que o governo Lula inventou quando se imaginava capaz de mudar o Brasil e o mundo por meio da criação de repartições públicas "com status de ministério". O que conseguiu em matéria de benefício real para o público em todas elas, até agora, foi três vezes nada, mas também não havia prejuízo maior que o desperdício de uns milhões de reais aqui ou ali. Eis que surge de repente a ministra Matilde -- e, logo na primeira vez que se faz notar, já é criando confusão. É mais ou menos como aquelas pessoas cuja presença na festa ninguém percebe até que derrubam a bandeja das empadinhas. Nessa hora vem a pergunta: "Mas quem é a figura?" No caso, a ministra tornou sua presença conhecida declarando, na prática, que racismo de negros em relação a brancos não é racismo.
Um ministério que precisa de seis palavras diferentes em seu nome para explicar o que faz já é, naturalmente, um problema em si. Mas sempre se pode piorar coisas que nascem erradas -- e nesse ponto a ministra Matilde Ribeiro mostrou que tem um grande potencial a ser desenvolvido. A dificuldade não é propriamente o disparate que disse; ao longo dos últimos quatro anos e quatro meses, declarações como essa, ou piores ainda, tornaram-se uma marca registrada entre gente do governo, e com o tempo todo mundo foi se acostumando a ouvi-las e esquecê-las. Por que, então, a ministra da Seppir não teria direito a seu próprio repertório? A questão real está em outro lugar: mais exatamente na insistência de pessoas do governo e de sua vizinhança próxima em criar um problema racial no Brasil. Servem-se, para isso, de uma repartição pública como a que é ocupada pela ministra Matilde -- e aí a coisa já se torna mais complicada que o mero desperdício de dinheiro do Erário ou a produção de frases sem pé nem cabeça.
Toda a história da luta universal contra o racismo fundamenta-se, acima de qualquer outra idéia, no princípio segundo o qual as pessoas pertencem a uma raça só -- a raça humana. Não podem, assim, ser divididas por critérios de cor da pele em nenhum tipo de lei, documento oficial ou mesmo convenções de caráter privado. No Brasil de hoje, a ação dos que se dizem promotores da igualdade racial, incluindo a Seppir, vai na direção precisamente contrária. Seu esforço é para incluir a distinção de cor na legislação, o que criaria, pela primeira vez em 118 anos de República, brasileiros com direitos e deveres diferentes segundo a "raça" em que nasceram. Por essa visão do mundo, os negros deveriam ter mais direitos que os brancos, como cotas para vagas na universidade ou no serviço público, para compensar as injustiças sofridas na época do trabalho escravo, combater atitudes de discriminação e equilibrar diferenças na situação econômica. Não há, naturalmente, a mais remota idéia de como fazer a distinção "científica" entre uns e outros, sobretudo num país onde a maioria das pessoas não sabe dizer a que "raça" pertence nem parece se importar com isso. Também não se leva em conta o fato de que ninguém, a começar pelas autoridades da Seppir, é capaz de apontar, em qualquer lugar do mundo, um país menos racista que o Brasil. Enfim, toma-se a ocorrência de atitudes racialmente ofensivas como prova de racismo -- quando são delitos individuais iguais a quaisquer outros, algo que não deveria espantar ninguém quando se consideram as taxas vigentes de criminalidade no país ou o fato de que quase 20% dos atuais integrantes da Câmara de Deputados têm problemas com o Código Penal. O que realmente interessa a quem opera nesse pesqueiro é fabricar um problema novo. Problemas, como se sabe, são uma excelente maneira de arrumar um meio de vida para quem vai cuidar deles.
Até outro dia, muito pouca gente neste país tinha ouvido falar da ministra Matilde Ribeiro e menos ainda de seu ministério -- algo que leva o torturado nome de Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ou Seppir, como os burocratas gostam de abreviar no papelório oficial que circula em Brasília. É uma dessas coisas que o governo Lula inventou quando se imaginava capaz de mudar o Brasil e o mundo por meio da criação de repartições públicas "com status de ministério". O que conseguiu em matéria de benefício real para o público em todas elas, até agora, foi três vezes nada, mas também não havia prejuízo maior que o desperdício de uns milhões de reais aqui ou ali. Eis que surge de repente a ministra Matilde -- e, logo na primeira vez que se faz notar, já é criando confusão. É mais ou menos como aquelas pessoas cuja presença na festa ninguém percebe até que derrubam a bandeja das empadinhas. Nessa hora vem a pergunta: "Mas quem é a figura?" No caso, a ministra tornou sua presença conhecida declarando, na prática, que racismo de negros em relação a brancos não é racismo.
Um ministério que precisa de seis palavras diferentes em seu nome para explicar o que faz já é, naturalmente, um problema em si. Mas sempre se pode piorar coisas que nascem erradas -- e nesse ponto a ministra Matilde Ribeiro mostrou que tem um grande potencial a ser desenvolvido. A dificuldade não é propriamente o disparate que disse; ao longo dos últimos quatro anos e quatro meses, declarações como essa, ou piores ainda, tornaram-se uma marca registrada entre gente do governo, e com o tempo todo mundo foi se acostumando a ouvi-las e esquecê-las. Por que, então, a ministra da Seppir não teria direito a seu próprio repertório? A questão real está em outro lugar: mais exatamente na insistência de pessoas do governo e de sua vizinhança próxima em criar um problema racial no Brasil. Servem-se, para isso, de uma repartição pública como a que é ocupada pela ministra Matilde -- e aí a coisa já se torna mais complicada que o mero desperdício de dinheiro do Erário ou a produção de frases sem pé nem cabeça.
Toda a história da luta universal contra o racismo fundamenta-se, acima de qualquer outra idéia, no princípio segundo o qual as pessoas pertencem a uma raça só -- a raça humana. Não podem, assim, ser divididas por critérios de cor da pele em nenhum tipo de lei, documento oficial ou mesmo convenções de caráter privado. No Brasil de hoje, a ação dos que se dizem promotores da igualdade racial, incluindo a Seppir, vai na direção precisamente contrária. Seu esforço é para incluir a distinção de cor na legislação, o que criaria, pela primeira vez em 118 anos de República, brasileiros com direitos e deveres diferentes segundo a "raça" em que nasceram. Por essa visão do mundo, os negros deveriam ter mais direitos que os brancos, como cotas para vagas na universidade ou no serviço público, para compensar as injustiças sofridas na época do trabalho escravo, combater atitudes de discriminação e equilibrar diferenças na situação econômica. Não há, naturalmente, a mais remota idéia de como fazer a distinção "científica" entre uns e outros, sobretudo num país onde a maioria das pessoas não sabe dizer a que "raça" pertence nem parece se importar com isso. Também não se leva em conta o fato de que ninguém, a começar pelas autoridades da Seppir, é capaz de apontar, em qualquer lugar do mundo, um país menos racista que o Brasil. Enfim, toma-se a ocorrência de atitudes racialmente ofensivas como prova de racismo -- quando são delitos individuais iguais a quaisquer outros, algo que não deveria espantar ninguém quando se consideram as taxas vigentes de criminalidade no país ou o fato de que quase 20% dos atuais integrantes da Câmara de Deputados têm problemas com o Código Penal. O que realmente interessa a quem opera nesse pesqueiro é fabricar um problema novo. Problemas, como se sabe, são uma excelente maneira de arrumar um meio de vida para quem vai cuidar deles.