terça-feira, abril 24, 2007

Chega de CPI

Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo

Nem parece, mas houve uma CPI dos Bingos. Terminou seus trabalhos em janeiro de 2006, portanto outro dia mesmo. Foi apelidada de CPI do Fim do Mundo, porque engravidou de tudo quanto é denúncia e só faltou suspeitar do mapa astral de Antônio Palocci.

Agora que a máfia das liminares para bingos e caça-níqueis veio à tona, descobre-se que aquela barulhenta CPI, na verdade, fraudou o fim do mundo.

Ou melhor, o mundo estava mesmo desabando, pelo menos em alguns recantos da Justiça brasileira, mas a CPI não viu. Alguns dos personagens capturados agora na Operação Furacão da Polícia Federal, envolvidos na venda de liminares para a jogatina, estavam há alguns anos no ramo. Enquanto isso, os parlamentares justiceiros da CPI estavam naquele interminável uni-duni-tê entre Buratti e Poleto.

Os bingos funcionando alegremente pelo Brasil afora, depois que o presidente da República mandou fechar tudo, e os caça-níqueis tilintando a cada esquina com seu maquinário contrabandeado. Tudo normal. Tudo esquentado por decisões providenciais de juízes e desembargadores adestrados. E os deputados da CPI dos Bingos fazendo, desinibidos, seu teatro eleitoral.

Quase dez anos antes, a CPI do Judiciário tinha fisgado o juiz Nicolau. Troféu graúdo, o homem de 170 milhões de reais. Mas toda a fraude ali estava ligada a superfaturamento de obras. Ou seja, fraude orçamentária. Grave também, mas não tocava na medula do sistema de justiça. Venda de liminares e sentenças é a corrupção do próprio direito. Nessa indústria os heróis da CPI não tocaram. Na melhor das hipóteses, por distração.

A própria CPI do Narcotráfico, considerada bem-sucedida, obedeceu a uma mecânica esquisita. Em vários casos, metia-se em investigações conduzidas cuidadosamente pela polícia ou pelo ministério público e nada mais fazia do que jogar as informações nas manchetes. Às vezes até deu certo, como no caso do deputado-motosserra Hildebrando Pascoal (fisgado, na verdade, pelo procurador Luiz Francisco de Souza).

Muitas vezes, porém, o alarde da CPI só atrapalhou o processo – jogando nomes e cifras no ventilador antes da hora, e dando chance dos culpados se protegerem. Há fartas queixas de policiais e procuradores sobre esse açodamento dos pavões do Congresso (alguns dos quais, anos mais tarde, ficariam famosos como sanguessugas).

O que fez a CPI do Mensalão com a farta literatura policial oferecida por Marcos Valério, Delúbio Soares e companhia? Absolutamente nada. A CPI terminou sem fazer cócegas no valerioduto. Mesmo a CPI dos Correios, que prometia cravar uma estaca no coração de Lula, não passou de uma farpa. A prova é que José Dirceu, o homem que regeu Delúbio, Valério, Silvinho, Waldomiro e companhia, está aí batalhando sua anistia à luz do dia. E Valério passa bem. Muito bem.

Foi nessa mesma época que a CPI dos Bingos, do fim do mundo e do fim da picada apurou tudo sobre as relações do petismo com as moças de vida fácil de Brasília. Enquanto isso, no reino da jogatina, voavam liminares sob encomenda – e sob os narizes dos nobres parlamentares. Agora vem aí a CPI do Apagão Aéreo. Para que?

Provavelmente, em essência, para a oposição se exibir ao seu eleitorado enchendo o saco do Waldir Pires (que, com todo respeito, não precisa de ajuda externa para isso). Já deu para antever o circo naquela audiência na Câmara: o presidente da Anac negando que haja crise na aviação (referindo-se à saúde das empresas) e os parlamentares o acusando de querer encobrir a crise (referindo-se ao caos do tráfego aéreo). Tudo jogo de palavras. Tudo teatro.

Não que o teatro político não tenha o seu valor. Mas para isso, melhor seria criar uma única CPI permanente e entregá-la, como uma concessão pública, ao senador Pedro Simon. O show ficaria garantido, e o país liberado para tocar sua vida em frente – e para, entre outras coisas, investigar o Cindacta. Sem pantomima.