terça-feira, abril 24, 2007

A última fronteira

Editorial Jornal do Brasil

O Rio de Janeiro vive sob o domínio do medo. Até quando?, perguntou o Jornal do Brasil na primeira página da edição desta quarta-feira. A pergunta poderia ser desdobrada em incontáveis interrogações, todas perturbadoras. Até quando quem vive no Rio sofrerá as conseqüências da guerra urbana desencadeada por traficantes e bandidos com prontuários quilométricos? Até quando vítimas de perdas que provocam a dor que não passa - como os pais do menino João Hélio, ou de crianças fulminadas por tiroteios rotineiros - vão chorar o choro da desesperança, as lágrimas dos perplexos? Até quando multidões de moradores das grandes cidades sairão de casa sem saber se voltarão?

O furacão da violência atormenta há tempos todas as metrópoles brasileiras, mas é preciso reconhecer que, no momento, o Rio está no seu epicentro. Ontem, poucos carros ousaram cruzar o túnel Santa Bárbara, que na véspera fora palco de um tiroteio entre traficantes, primeiro, e depois entre criminosos e policiais. A estranha mudança na paisagem atesta que o som dos disparos produz efeitos duradouros.

Nem poderia ser diferente. Este é apenas um ângulo da luta perdida, até agora, pela sociedade e, especialmente, pelos responsáveis pela segurança pública do Estado e da União. Os alertas da incompetência estão por todos os lados. O serviço de inteligência da Polícia Militar, por exemplo, soube, uma semana antes, que o Morro da Mineira seria invadido por bandidos rivais. Não foi a primeira vez que os agentes interceptaram o planejamento de operações da bandidagem. Mas, para que serviu o conhecimento prévio? A batalha aconteceu e os inocentes pagaram com a vida o saldo da incompetência das Polícias.

A guerra urbana que transforma o Rio em refém do crime exige ação eficiente e rápida. O primeiro passo é a parceria das polícias para derrotar traficantes, ladrões, homicidas.

A hora clama pela reforma da legislação para permitir que Exército, Marinha e Aeronáutica se tornem parceiros do Estado na luta contra a violência. O momento cobra a integração das Forças Armadas aos soldados da Força Nacional, às Polícias Militar e Civil do Estado e à guarda municipal. O Rio, não importa o que diga a lei que o tempo ultrapassou, vive um estado de emergência de fato e de direito. A parceria na segurança pública é um clamor da sociedade ameaçada e vítima.

O momento não é de analisar as origens da criminalidade. Nem de projetar o ataque aos tumores sociais de olho no futuro. É urgente impedir que o Rio lidere o ranking das cidades mais violentas do mundo. As 700 cruzes fincadas na areia de Copacabana, em ato que marcou o protesto contra o recrudescimento da violência no mês passado, contam os mortos das batalhas urbanas apenas entre janeiro e março. A cidade que sempre festejava o verão agora contabiliza falecimentos. Pranteia perdas e acumula horrores. Inclui o pânico na rotina de vida.
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É hora de encarar os fatos e cobrar promessas. O governador Sérgio Cabral, durante a campanha, prometeu abrir os acessos aos morros, estender avenidas, criar praças, levar postos de saúde e delegacias ao centro das comunidades carentes. Até agora, nada. Jurou combater a corrupção policial. Acenou com um Rio de paz. Os que escapam de balas perdidas e dos confrontos do tráfico cobram, agora, a retórica que lhe rendeu o comando do Palácio Laranjeiras.

Ou o Brasil reage imediatamente, e com o vigor de um país em guerra, à escalada da violência no Rio e em suas cidades metrópoles, ou em pouco tempo terá deixado de existir como nação.