terça-feira, abril 24, 2007

A Bolívia agora atormenta Lula

Editorial do Jornal do Brasil

Os avisos foram dados , e não poucas vezes, desde que o presidente da Bolívia, Evo Morales, assumiu o poder. Agora, com a possibilidade de o corte de 20% no fornecimento do gás boliviano - motivado por uma revolta popular - gerar debates públicos sobre planos de contingência e até racionamento aqui, não custa recuperar os passos da crise anunciada.

O cocalero foi levado ao Palacio Quemado por uma coalizão na qual a principal força vinha dos radicais que emparedaram todos os seus antecessores. Acreditava que o apoio dessa massa continuaria, mesmo com a necessidade de tomar decisões com as quais seus aliados não concordavam além de fazer concessões ao liberalismo que rejeitam como dogma. Errou.

A desapropriação das instalações da Petrobras foi o primeiro passo. A tese do governo brasileiro era a de que a perda seria administrável desde que a indenização fosse proporcional. Politicamente, a consolidação do mandato de Morales poderia trazer frutos vindouros, que compensariam aquilo que foi nacionalizado.

Dali para a frente a questão do gás virou um minueto de avanços e recuos. Mais recuos que avanços, diga-se de passagem. Hoje, os afagos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para as diatribes de Evo Morales são coisa do passado. O céu nublou-se completamente diante da constatação, tardia, de que o boliviano não tem força política para enfrentar radicais de todos os matizes, desde os mineiros e cocaleros, com quem marchara ombro a ombro nas barricadas de El Alto, aos empresários separatistas da elite rica de Santa Cruz de La Sierra. Sequer consegue administrar uma Assembléia Constituinte altamente problemática.

Morales usou Lula como escudo e o brasileiro aceitou. Tudo em nome da Realpolitik. Alguém soprou no Planalto que fortalecer o boliviano, um mandatário simbolicamente rico em significado histórico para a população pobre, valia mais sacrifícios, fossem estes financeiros ou de imagem junto aos investidores internacionais. Nem o estabelecimento de valores para a venda do produto, com os quais a Petrobras não concordava - por lógica comercial, não política - demoveram o Planalto dessa aliança frágil como o cristal.

O Brasil cedeu mais uma vez. Era uma forma, justificou-se na ocasião, de barrar o avanço da influência do venezuelano Hugo Chávez sobre um cada vez mais isolado Morales. O estratagema não deu certo, mas novamente o Planalto preferiu avaliar o cenário por outra ótica. Assessores venezuelanos - da Petroleo de Venezuela (PDVSA) - ajudaram o governo boliviano na nacionalização dos investimentos estrangeiros.

Nem assim Lula engrossou a voz, preferindo desautorizar a Petrobras a cada queixa que a gigante petrolífera, cuja imagem de eficiência empresarial é um dos principais segredos do seu sucesso internacional. Rasgar contratos é pecado capital num negócio de bilhões. Mas, para o governo, ajudar Evo Morales era mais importante.

Agora, sem muito do amparo popular que possuía quando da nacionalização, o boliviano depende de medidas pirotécnicas para acalmar o lumpesinato descrente de suas intenções. Entre elas, a de não pagar os valores de mercado pelas instalações erguidas com dinheiro do erário brasileiro, nas quais instalou soldados do Exército em uma manifestação tão ufanista e agressiva quanto naïf.
A Bolívia de hoje é o tormento de Lula: o presidente perdeu as refinarias sem reagir a tempo nos fóruns apropriados, forçou a Petrobras a pagar mais caro pelo gás - e vai receber menos - afetando a credibilidade da companhia, e está vendo o sonho de ser o líder regional virar pó