domingo, maio 06, 2007

Demagogia

Carlos Sardenberg, Portal G1
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Disse o presidente Lula ao quebrar a patente do remédio Efavirenz: “não é possível alguém ficar rico com a desgraça dos outros”.
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É uma demagogia monumental.
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Remédios custam dinheiro e custam muito caro. Remédios de ponta, contra a Aids, são ainda mais caros. Dependem de pesados investimentos em pesquisas, sempre duvidosas, muitas fracassando, adicionando mais custos quando se chega, finalmente, a um medicamento eficiente e seguro.
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São as empresas privadas, multinacionais, que estão na vanguarda da pesquisa médica e da produção de novos remédios. Com raras exceções, os governos fracassam nesse tipo de inovação.
Obviamente, as companhias que descobrem e colocam na praça um novo medicamento devem ser remuneradas por isso. Não porque precisam enriquecer seus acionistas, muito menos porque seus acionistas são vampiros querendo enriquecer com a desgraça dos outros.
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Mas pela simples e boa razão de que, se não forem remuneradas, as companhias não farão novas pesquisas e não haverá novos medicamentos. Ou seja, o sistema só funciona se as companhias tiverem certeza de que seus direitos de propriedade serão respeitados e seus investimentos, remunerados.
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Ora, o que o governo Lula fez – e sobretudo disse – é que no Brasil não se vai remunerar o inventor e, pois, o dono da patente.
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Mais ainda. A quebra da patente não se fez para a produção local do medicamento, mas para a importação da Índia. Eis a extensão da demagogia do presidente Lula: os desgraçados brasileiros não vão enriquecer os donos da patente, mas os donos da fábrica na Índia, que podem vender mais barato porque não investiram na pesquisa. Mas é claro que estão ganhando dinheiro com a desgraça dos doentes brasileiros.
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E depois vem o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, dizer que a indústria farmacêutica privada é essencial, que é fonte de inovação e que será priorizada.
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O que o presidente Lula e o ministro da Saúde fizeram e estão ameaçando de fazer mais é exatamente o contrário: quebrar patentes de outros medicamentos, e assim negar o direito de propriedade, para... importar de terceiros países!!!
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E dizendo que é para o respeito do Brasil.
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O mínimo que poderiam fazer seriam acordos de transferência de tecnologia para a produção aqui de certos medicamentos. E não criar um enorme desestímulo à indústria local para economizar US$ 30 milhões, quando acordos com o fabricante poderiam propiciar economias menores, por certo, mas acordos de transferência mais estimulantes a longo prazo.
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Em tempo: quem vai enriquecer os fabricantes indianos de Efavirenz não são apenas os desgraçados brasileiros, são todos os contribuintes de impostos, com os quais o governo vai pagar.
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O presidente Lula posa de esquerda e manda a conta para os contribuintes.