quarta-feira, maio 23, 2007

No calo de outros as CPIs são boas

Tales Faria, Informe JB

Recordar é viver. Nada como rever o que diziam nossos políticos no passado e o que passaram a argumentar depois. O que pensam quando são governo e o que expressam quando são oposição. O que usam para apedrejar quando são atiradeira, e o que defendem quando são vidraça.

Em 2005, o presidente Lula e o PT fizeram das tripas coração para impedir a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios. Argumento principal: a Polícia Federal já estava em cima do assunto, portanto, não havia necessidade de os parlamentares investigarem o mesmo tema.

Mas veja o que dizia Lula, em abril de 2001, quando se tratava da tentativa de criar a CPI da Corrupção contra o governo FH:

- Um presidente da República não pode aparecer em público e impedir uma CPI como está fazendo o Fernando Henrique, até porque não é apenas uma denúncia, são muitas.

Compra de votos pela reeleição, favorecimentos nas privatizações. De fato, eram muitas as denúncias, mas os aliados de Fernando Henrique Cardoso resistiram bravamente e conseguiram barrar a CPI. Depois, Lula assumiu a Presidência da República, e o PSDB e PFL foram para a oposição.

Vejamos, por exemplo, o líder do PFL (hoje partido Democratas) no Senado, José Agripino Maia (RN). Consta do site do seu colega senador Marco Maciel (DEM-PE) uma defesa da CPI dos Correios, em 14 de junho de 2005, nos seguintes termos:

"O senador Agripino Maia reforçou a posição do PFL de levar a CPI dos Correios às últimas conseqüências (...). As ações da Polícia Federal, que já prendeu dois responsáveis pela gravação da conversa com o ex-chefe de departamento dos Correios Maurício Marinho e ainda não convocou parlamentares envolvidos, como o deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), não passam de 'grande jogo de cena' do governo, na avaliação de Agripino Maia. O que, segundo ele, só reforça a necessidade de uma investigação pelo Congresso".

Bem, e agora no caso da Operação Navalha da Polícia Federal que atinge políticos de praticamente todos os partidos, incluindo o PFL e o PSDB? O que acha Agripino Maia? A coluna foi ouvi-lo:

- É preciso prudência neste momento, porque há o perigo de o Executivo estar querendo jogar a roupa suja para o Legislativo e este é um problema muito mais dos governos federal, estaduais e municipais. Já temos duas CPIs funcionando (uma sobre Apagão Aéreo), uma terceira CPI poderia paralisar o Congresso. E, além do mais, a Polícia Federal tem controle absoluto das investigações.


PMDB com DEM
O líder do DEM no Senado, José Agripino Maia, não está sozinho quando acusa o governo de tentar jogar sobre o Congresso o desgaste pelas denúncias da Operação Navalha. Teve ontem mesmo uma longa conversa com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Renan prometeu a Agripino levar o PMDB a atuar junto com o PFL nesse caso. Falaram até em dar o troco ao governo na CPI do Apagão Aéreo.

Tarso na berlinda
Renan Calheiros e José Agripino Maia disseram cobras e lagartos do ministro da Justiça, o petista Tarso Genro. Combinaram discutir com os demais líderes a possibilidade de convocar Genro ao Congresso. A idéia seria fazê-lo dar explicações sobre o vazamento das apurações da Política Federal, que ainda estão sob regime de sigilo de Justiça.

PMDB x PT
Os senadores do PMDB acham que é grande o risco de o PT tentar tomar a vaga de ministro das Minas e Energia, caso o titular, Silas Rondeau, renuncie por causa das denúncias de que teria recebido propina da empreiteira Gautama. Ontem o nome do presidente de Itaipu Binacional, o petista Jorge Samek, amigo pessoal de Lula, já circulava em Brasília como uma opção.

Abin investiga
A Agência Brasileira de Informações vem acompanhando de perto as investigações da Polícia Federal em torno das empreiteiras do setor elétrico. E é a Abin, mais do que a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que tem barrado as indicações dos peemedebistas para cargos na área.

Privilégios no BC
Denúncia do ex-ministro José Dirceu, ontem em seu blog: "Alguma coisa estranha está acontecendo no Banco Central. O relatório Focus, divulgado toda segunda-feira às 8h30, não saiu hoje. A assessoria de imprensa do BC avisou aos jornalistas que o relatório não estará disponível em nenhum momento do dia. Nem no site oficial do Banco o relatório está disponibilizado. No entanto, o Bradesco divulgou um relatório com os dados do Focus do Banco Central. O relatório do BC é fechado sempre na sexta-feira. O Bradesco deve ter recebido o conteúdo na sexta, porque soltou a informação hoje bem cedo, possivelmente sem saber que o relatório original do BC não sairia. Ou, o que é pior: é possível que o Bradesco sempre receba o relatório original na sexta-feira, antes das demais instituições financeiras e da imprensa. Outros bancos nacionais e dois grandes bancos estrangeiros também não receberam o relatório".

Origem: Banestado
Desde o chamado Caso Banestado, a Polícia Federal não pára de fazer grandes operações, como a Operação Navalha. É que, nos grampos com autorização judicial que a PF faz sobre um caso, sempre aparecem outras histórias. Aí é aberta uma nova investigação, com novas escutas específicas. Quando um caso estoura na imprensa, já há pelo menos três outros abertos a partir dele.

Lula blindado
Segundo uma pesquisa de opinião que circula no governo, a população não identifica o presidente da República como um político. Daí por que denúncias contra políticos desgastam apenas a imagem do Congresso, não a do governo.