quarta-feira, maio 23, 2007

O herói desperdiçado

Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo

Saiu o gol mil de Romário. Que pena. Que pena as circunstâncias opacas, que pena o apequenamento histórico. Romário se livrou de seu gol mil.

O Brasil é um país culturalmente estranho. É capaz de idolatrar Guga, Robert Scheidt e até Rubinho Barrichello. Ao mesmo tempo, adora implicar com Pelé e Romário.

O tenista, o iatista e o piloto têm o seu valor. Os dois primeiros, especialmente, têm um belo currículo esportivo. Mas ídolo é outra coisa. Pelé e Romário estão entre os brasileiros que fortificaram a identidade do povo, que projetaram o país no mundo. E um dos esportes prediletos por aqui é dizer que Pelé só fala besteira. Quanta ignorância.

Há mais de cinco anos Romário é tratado como um intruso na sala de jantar, um morto-vivo do futebol que insiste em assombrar os “modernos” – essas vacas premiadas acéfalas que tanto impressionam os pragmáticos.

Mas o fato é que, aos 41 anos, Romário ainda joga futebol. E muito bem. Não é uma alma penada. Ao contrário, tem sido assombrado pela mediocridade dos que o cercam em campo, pela elegia da burrice. Às vezes, desolado, parece sonhar com uma tradução simultânea para que seus companheiros de time o compreendam em campo.

Só que o Brasil é impaciente. Se relaciona com seus heróis como mariposas em volta da luz, que se atiram contra ela de qualquer maneira. Quando Romário vai parar? Por que Romário insiste? Por que recebe tantos privilégios? Romário não foi ao clube. Romário faltou um treino. Romário saiu à noite.

Como pode a idolatria sair pela culatra? O Brasil inteiro devia estar torcendo pelo gol mil de Romário, um momento histórico na vida do país. Quase saiu lindamente contra o Flamengo, no Maracanã cheio, num jogo em que Romário jogava bem e já fizera um gol, sem carta marcada, sem privilégio, sem assombração.

Se o gol mil demorasse cinqüenta jogos para sair, o Brasil deveria fazer cinqüenta festas para Romário. Curtir o momento sublime. Condecorar seu herói.

Mas o que se viu foi a habitual onda de pressões rasteiras, intrigas, incitação de crises, narizes torcidos contra a “marra” do jogador, ataques à sua proximidade de Eurico Miranda.

De novo: quanta ignorância. O Brasil mistura Eurico Miranda com Romário porque não sabe separar o mito do escroque. Pobre país.

A espera pelo gol mil virou crise, e Romário preferiu se livrar dela. Livrou-se do seu gol mil.

Marcou-o numa partida desimportante, contra um adversário desimportante, num lance desimportante, longe do Maracanã, longe da grande ribalta, longe do clímax que tanto merecia.

Mas o Brasil não merecia. E acabou sendo atendido por Romário.