domingo, maio 27, 2007

Venezuela de Chávez enfrenta crise econômica

Pablo López Guelli Enviado do G1 a Caracas

Rica em petróleo, a Venezuela de Hugo Chávez está passando por uma conturbada crise econômica. A inflação está alta (atingiu 2% em janeiro). Há desabastecimento de produtos básicos nos supermercados, como carne, leite e açúcar. E para piorar o governo criou uma tabela de preços -ao estilo do Plano Cruzado adotado no Brasil nos anos 80- que não está sendo respeitada.
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Parece um contrasenso falar em crise econômica num país que fatura cerca de US$ 70 bilhões por ano com a venda de petróleo -e que usa parte dessa receita para dar ajuda financeira aos vizinhos mais pobres da América Latina. Mas a própria reação do presidente venezuelano revela a gravidade do problema. O governo Chávez acusa os varejistas e revendedores de alimentos de tirarem carne e outros itens das prateleiras dos supermercados com o objetivo de elevar artificialmente os preços. Já os comerciantes alegam que, com o preço fixado e a inflação alta, estarão perdendo dinheiro.
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A primeira medida adotada pela administração foi tabelar os preços, publicando no Diário Oficial uma lista com os valores máximos que podem ser cobrados. A idéia era controlar a inflação, que chegou perto dos 20% no ano passado -para comparação, o índice no Brasil fechou 2006 em 3,14%.
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Assim como aconteceu com o congelamento instituído pelo governo José Sarney, em 1986, a tática venezuelana não deu certo.
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Vendo os preços subirem e as prateleiras vazias, Chávez, há 13 dias, ameaçou estatizar açougues e supermercados que vendem acima do preço tabelado. Acusou os Estados Unidos de organizarem uma "conspiração" e disse que começaria a expropriação pelas empresas maiores do setor alimentício. Afirmou que aguardava apenas "um bom motivo" para começar.

A reportagem do G1 visitou nesta semana quatro supermercados em Caracas. Viu produtos à venda acima do preço tabelado e ouviu dos venezuelanos reclamações, muitas reclamações.
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Para a bancária Marcelena Escobasa, os preços de alguns produtos "ainda estão altos" e a culpa pela escassez de alimentação é do governo.
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"Outro dia tive de ficar duas horas na fila de uma feira para poder comprar frango importado do Brasil. É muito bom, mas não dá para perder tanto tempo cada vez que preciso comprar frango. E faltam outros produtos também. Já passei uma semana inteira sem conseguir açúcar", disse Marcelena.
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Ela era uma das milhões de venezuelanas que acompanharam Chávez na televisão dias atrás pedindo que a população se engajasse na cruzada antiinflação. O presidente tentou recrutar voluntariamente seu povo para atuar como fiscais do tabelamento de preços -no mesmo moldes dos fiscais do Sarney no Plano Cruzado.
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"Denunciem, porque então vamos intervir. Vamos dar esses estabelecimentos aos conselhos comunais para que eles os administrem", afirmou Chávez na TV. Marcelena disse que, apesar da indignação com o aumento de preços, ainda não denunciou nenhum supermercado. Mas que está disposta a fazê-lo.
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O mecânico Nerio Carreros tem outra explicação para a crise econômica. Para ele, um apoiador do regime de Chávez, a culpa é dos comerciantes.

"Cada supermercado tinha preços diferentes! Por que vender aqui a um preço e em outro lugar mais caro? Quando isso acontece, o dono do estabelecimento ganha um dinheirão e o povo perde", disse Carreros.
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Ele afirma ter ficado "muito feliz" com o tabelamento. "Parece que alguns supermercados ainda não obedecem, mas acho que a situação vai se resolver. Sei que o governo está fazendo isso pelas pessoas e vamos ajudar a fiscalizar." Para a economista Ana Julia Jatar, crítica do governo Chávez, o congelamento "não tem como funcionar".
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"O governo criminalizou o controle da inflação: agora quer controlá-la por meio de ameaças. Mas isso não dá resultados. Basta você ver as conseqüências: hoje temos desabastecimento, inflação alta e, ainda assim, muitos comerciantes não respeitam a tabela. Essa medida é uma negação do fato de que existe uma lei natural na economia, a lei da oferta e da demanda. É uma política de gente que não entende o princípio básico", diz a economista.
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Para Ricardo Sanguino, presidente da comissão de finanças da Assembléia Legislativa, o tabelamento é necessário e será mantido.

"O controle [de preços] precisou ser feito porque alguns comerciantes querem ganhar dinheiro com a situação e para isso escondem seus produtos. Mas aqui na Venezuela estamos passando por um processo de mudança de mentalidade. Agora o interesse do ser humano vai prevalecer sobre os interesses particulares", diz Sanguino, para quem a atual crise "é apenas mais uma batalha dentro de uma guerra maior: a luta de classes".

Ele completa: "esse boicote é provocado deliberadamente por alguns grupos econômicos que não aceitam de forma alguma a proposta política-econômica-social que o governo bolivariano vem implentando. Com isso, tentam gerar descontentamento na população. Mas eles não terão êxito, a vontade do povo vai prevalecer".
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A reportagem do G1 tenta há duas semanas marcar entrevistas com representantes do governo federal e obter dados oficiais sobre a economia venezuelana. Mas as assessorias de comunicação dos ministérios do governo Chávez não fornecem as informações solicitadas.