Ubiratan Iorio, economista, Jornal do Brasil
Há poucos dias, a mídia deu-nos conta de que o ministro da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão (lá, existe o bom costume de economizar ministérios), por ter seu nome envolvido em uma acusação de corrupção assomando a R$ 446,7 milhões, suicidara-se, para não ter de se submeter à execração pública. Na cultura nipônica, a perda da honra perante a sociedade costuma motivar inúmeros casos de auto-imolação: apenas no ano de 2004, foram registrados 32 mil casos.
A raiz dos sentimentos de honra e vergonha - intrínsecos e inerentes a pessoas não corrompidas - bem como o valor atribuído a ambos, está no fato de que ninguém nasce para ser solitário, mas para ser solidário: um Robinson Crusoé sozinho em uma ilha não tem por que prezar sua honra nem sentir vergonha. A solidariedade torna natural, portanto, que o homem aspire a ser considerado um membro útil na sociedade, capaz de cooperar com os demais e, portanto, a ter o direito de participar das vantagens da vida em comunidade. Para tal, precisa fazer o que se lhe exige e o que dele se espera, seja como indivíduo, seja na posição social que eventualmente ocupa, o que o leva a sentir que o importante não é o que representa na sua própria opinião, mas na dos outros, que emerge como um forte valor. Isso explica a espontaneidade do atributo chamado de honra ou - de acordo com as circunstâncias - de pudor, que o deixa ruborizado de vergonha quando acredita ter subitamente decaído na opinião dos outros, até mesmo quando sabe ser inocente: é o chamado dano moral.
Ainda no século 18, Matias Aires já ensinava que "não há maior injúria que o desprezo, porque o desprezo ofende a vaidade; por isso a perda da honra aflige mais que a da fortuna, não porque esta deixe de ter um objeto mais certo e mais visível, mas porque aquela toda se compõe de vaidade, que é em nós a parte mais sensível". De fato, é mais difícil para o homem digno expor a sua honra por amor à vida do que sacrificar a própria vida por amor à honra.
Como compreender, então, que muitas importantes figuras públicas brasileiras, também acusadas de corrupção, ajam com freqüência como se fossem verdadeiros heróis nacionais? É claro que não devemos pleitear que se transformem em japoneses e se suicidem, porque só a Deus cabe dar e tirar a vida de seres humanos, mas não podemos deixar de observar que, no triste Brasil de hoje, virtudes como honra e vergonha, para muitos homens públicos, não passam de palavras, apenas palavras, nada mais do que fúteis e inúteis palavras. Parole, parole, parole...
Vampiros e mensaleiros; sanguessugas e navalheiros; lobistas e empreiteiros; irmãos e cunhados; secretárias e esposas; namoradas e amantes; citados por formação de quadrilha e assemelhados... O que leva tantas figuras importantes não apenas a desprezarem a própria honra e a perderem completamente a vergonha, mas a mentirem flagrantemente, encenando espetáculos bufos repletos de subterfúgios, apenas para enganar a opinião pública? E - pior - por que esses inimigos da pátria recusam-se a abandonar a vida pública? Ou - o que ainda é mais preocupante - por que têm o desplante de pleitear suas anistias (e, muitas vezes, até conseguem ser reeleitos), no caso de parlamentares, ou a cara-de-pau de permanecerem em seus cargos, no caso de magistrados, funcionários públicos, executivos e, como sempre, de parlamentares?
O ar está tão podre "neste país" que honra parece ser apanágio de otários; vergonha, de bobocas; pudor, de freiras enclausuradas, e dignidade, de idiotas! O importante não é servir, mas servir-se; não é prover, mas locupletar-se, e não é trabalhar, mas enriquecer a qualquer custo!
Corruptos, desonrados, sem-vergonhas e indignos há em todos os jardins do mundo, mas na maioria deles não grassa o capim bravo da impunidade e a tiririca das punições brandas; corporativismo e patrimonialismo espraiam-se também por outras culturas, mas nem de longe vicejam como cá. E chefes de executivos débeis e despreparados também pousam em arbustos de outras paragens, mas, lá, não gorjeiam como cá! Porque, lá, o braço da lei é forte!
Há poucos dias, a mídia deu-nos conta de que o ministro da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão (lá, existe o bom costume de economizar ministérios), por ter seu nome envolvido em uma acusação de corrupção assomando a R$ 446,7 milhões, suicidara-se, para não ter de se submeter à execração pública. Na cultura nipônica, a perda da honra perante a sociedade costuma motivar inúmeros casos de auto-imolação: apenas no ano de 2004, foram registrados 32 mil casos.
A raiz dos sentimentos de honra e vergonha - intrínsecos e inerentes a pessoas não corrompidas - bem como o valor atribuído a ambos, está no fato de que ninguém nasce para ser solitário, mas para ser solidário: um Robinson Crusoé sozinho em uma ilha não tem por que prezar sua honra nem sentir vergonha. A solidariedade torna natural, portanto, que o homem aspire a ser considerado um membro útil na sociedade, capaz de cooperar com os demais e, portanto, a ter o direito de participar das vantagens da vida em comunidade. Para tal, precisa fazer o que se lhe exige e o que dele se espera, seja como indivíduo, seja na posição social que eventualmente ocupa, o que o leva a sentir que o importante não é o que representa na sua própria opinião, mas na dos outros, que emerge como um forte valor. Isso explica a espontaneidade do atributo chamado de honra ou - de acordo com as circunstâncias - de pudor, que o deixa ruborizado de vergonha quando acredita ter subitamente decaído na opinião dos outros, até mesmo quando sabe ser inocente: é o chamado dano moral.
Ainda no século 18, Matias Aires já ensinava que "não há maior injúria que o desprezo, porque o desprezo ofende a vaidade; por isso a perda da honra aflige mais que a da fortuna, não porque esta deixe de ter um objeto mais certo e mais visível, mas porque aquela toda se compõe de vaidade, que é em nós a parte mais sensível". De fato, é mais difícil para o homem digno expor a sua honra por amor à vida do que sacrificar a própria vida por amor à honra.
Como compreender, então, que muitas importantes figuras públicas brasileiras, também acusadas de corrupção, ajam com freqüência como se fossem verdadeiros heróis nacionais? É claro que não devemos pleitear que se transformem em japoneses e se suicidem, porque só a Deus cabe dar e tirar a vida de seres humanos, mas não podemos deixar de observar que, no triste Brasil de hoje, virtudes como honra e vergonha, para muitos homens públicos, não passam de palavras, apenas palavras, nada mais do que fúteis e inúteis palavras. Parole, parole, parole...
Vampiros e mensaleiros; sanguessugas e navalheiros; lobistas e empreiteiros; irmãos e cunhados; secretárias e esposas; namoradas e amantes; citados por formação de quadrilha e assemelhados... O que leva tantas figuras importantes não apenas a desprezarem a própria honra e a perderem completamente a vergonha, mas a mentirem flagrantemente, encenando espetáculos bufos repletos de subterfúgios, apenas para enganar a opinião pública? E - pior - por que esses inimigos da pátria recusam-se a abandonar a vida pública? Ou - o que ainda é mais preocupante - por que têm o desplante de pleitear suas anistias (e, muitas vezes, até conseguem ser reeleitos), no caso de parlamentares, ou a cara-de-pau de permanecerem em seus cargos, no caso de magistrados, funcionários públicos, executivos e, como sempre, de parlamentares?
O ar está tão podre "neste país" que honra parece ser apanágio de otários; vergonha, de bobocas; pudor, de freiras enclausuradas, e dignidade, de idiotas! O importante não é servir, mas servir-se; não é prover, mas locupletar-se, e não é trabalhar, mas enriquecer a qualquer custo!
Corruptos, desonrados, sem-vergonhas e indignos há em todos os jardins do mundo, mas na maioria deles não grassa o capim bravo da impunidade e a tiririca das punições brandas; corporativismo e patrimonialismo espraiam-se também por outras culturas, mas nem de longe vicejam como cá. E chefes de executivos débeis e despreparados também pousam em arbustos de outras paragens, mas, lá, não gorjeiam como cá! Porque, lá, o braço da lei é forte!