Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
A ninguém será dado tirar os méritos do presidente Lula, que vai governando da melhor maneira possível e, apesar dos obstáculos, consegue manter as instituições em funcionamento. Agora, não dá para aceitar, pela milésima vez, como fez em seu "Café com o Presidente", esta semana, que seu governo é o melhor desde a Proclamação da República. Para ele, o Brasil vive o seu momento mais alto desde 15 de novembro de 1889. Convenhamos, pode ser presunção, ingenuidade ou malícia, mas verdade não é.
Lula passa o apagador no quadro às vezes nem tão negro assim do nosso passado. Afinal, momentos superiores vivemos quando Getúlio Vargas estabeleceu as leis trabalhistas, quando Eurico Dutra pacificou a política nacional e quando Juscelino Kubitschek promoveu o desenvolvimento.
Se é verdade que o gaúcho governou muitos anos como ditador, que o general endividou o País e que o mineiro despertou a inflação, também fica óbvio que o atual presidente contribui para a crise no campo, sem promover a reforma agrária, que os aeroportos viraram sucursal do inferno, as rodovias esburacadas nos envergonham, a corrupção jamais alcançou níveis como os atuais, só crescemos mais do que o Haiti, o trabalho infantil aumentou, o desemprego não diminuiu.
Sem falar que boa parte da população vive de esmolas, agarrada à ilusão do bolsa-família ou sobrevivendo com a metade de um ridículo e indecente salário mínimo por mês. Melhor faria o presidente Lula em evitar essas explosões de falsa euforia e reconhecer que falta um mundo a construir e um universo a realizar.
A mão no fogo
Repete o senador Pedro Simon que não põe a mão no fogo por Renan Calheiros nem por ninguém mais. A recíproca, porém, não é verdadeira. O Brasil põe a mão no fogo por ele, sem a menor dúvida o parlamentar mais honesto, inflexível, competente e forjado para continuar prestando os maiores serviços às instituições nacionais. O preâmbulo se faz para aferirmos a distância que separa o País formal do País real. Porque, formalmente, fogem dele como o diabo da cruz, os companheiros no Senado e no PMDB.
Há tempos que teria sido não apenas o melhor nome para presidir o Congresso, mas, até, o melhor candidato à presidência pelo seu partido. O Brasil seria outro, sob sua liderança, mesmo sem a pretensão de tornar-se o melhor desde a Proclamação da República, como anda repetindo Lula a respeito de seu governo.
A razão é simples: lutaria contra a impunidade e promoveria reformas de verdade, conforme deixou claro em milhares de pronunciamentos feitos desde os tempos em que, deputado estadual no Rio Grande do Sul, liderou a oposição ao regime militar sem apelar para a violência ou o radicalismo. A impunidade, para Pedro Simon, é a grande praga que nos assola e impede a realização de reformas econômicas e sociais em condições de superar o triste quadro de elites cada vez mais ricas e uma população cada vez mais descrente. Fica o registro, para ulteriores desdobramentos do processo político em curso, capazes de surpreender. Afinal, milagres às vezes acontecem...
Não dá para calar
O nevoeiro saiu momentaneamente de campo, entraram raios, como responsáveis pelo caos nos aeroportos. Já foram cadelas na pista, urubus no ar, chuva, obras, vendas de mais bilhetes do que poltronas pelas empresas, preços baixos que aumentam o número de passageiros, acusações de sabotagem por parte dos controladores de vôo, acúmulo de serviço, panes nos equipamentos e quanta coisa a mais?
É a falência dos transportes aéreos, fenômeno que atropela o País desde o final do ano passado. O jogo de empurra continua e prejudicados são os usuários, ao tempo em que o maior responsável, o governo, enterra a cabeça na areia em meio à tempestade, feito o avestruz.
Ninguém se iluda. Continuando as coisas como vão, logo virá a reação inevitável. Da indignação tem-se passado a reclamações veementes e invasão das pistas por passageiros amotinados, pois ninguém está disposto a relaxar e gozar, pelo fato de os aeroportos não serem motéis. Logo virá o desespero, através da depredação de instalações e aeronaves. Uma evidência a mais de que o Brasil não vive o seu melhor momento, desde a Proclamação da República, ainda que nos tempos de Deodoro da Fonseca o avião não existisse...
A ninguém será dado tirar os méritos do presidente Lula, que vai governando da melhor maneira possível e, apesar dos obstáculos, consegue manter as instituições em funcionamento. Agora, não dá para aceitar, pela milésima vez, como fez em seu "Café com o Presidente", esta semana, que seu governo é o melhor desde a Proclamação da República. Para ele, o Brasil vive o seu momento mais alto desde 15 de novembro de 1889. Convenhamos, pode ser presunção, ingenuidade ou malícia, mas verdade não é.
Lula passa o apagador no quadro às vezes nem tão negro assim do nosso passado. Afinal, momentos superiores vivemos quando Getúlio Vargas estabeleceu as leis trabalhistas, quando Eurico Dutra pacificou a política nacional e quando Juscelino Kubitschek promoveu o desenvolvimento.
Se é verdade que o gaúcho governou muitos anos como ditador, que o general endividou o País e que o mineiro despertou a inflação, também fica óbvio que o atual presidente contribui para a crise no campo, sem promover a reforma agrária, que os aeroportos viraram sucursal do inferno, as rodovias esburacadas nos envergonham, a corrupção jamais alcançou níveis como os atuais, só crescemos mais do que o Haiti, o trabalho infantil aumentou, o desemprego não diminuiu.
Sem falar que boa parte da população vive de esmolas, agarrada à ilusão do bolsa-família ou sobrevivendo com a metade de um ridículo e indecente salário mínimo por mês. Melhor faria o presidente Lula em evitar essas explosões de falsa euforia e reconhecer que falta um mundo a construir e um universo a realizar.
A mão no fogo
Repete o senador Pedro Simon que não põe a mão no fogo por Renan Calheiros nem por ninguém mais. A recíproca, porém, não é verdadeira. O Brasil põe a mão no fogo por ele, sem a menor dúvida o parlamentar mais honesto, inflexível, competente e forjado para continuar prestando os maiores serviços às instituições nacionais. O preâmbulo se faz para aferirmos a distância que separa o País formal do País real. Porque, formalmente, fogem dele como o diabo da cruz, os companheiros no Senado e no PMDB.
Há tempos que teria sido não apenas o melhor nome para presidir o Congresso, mas, até, o melhor candidato à presidência pelo seu partido. O Brasil seria outro, sob sua liderança, mesmo sem a pretensão de tornar-se o melhor desde a Proclamação da República, como anda repetindo Lula a respeito de seu governo.
A razão é simples: lutaria contra a impunidade e promoveria reformas de verdade, conforme deixou claro em milhares de pronunciamentos feitos desde os tempos em que, deputado estadual no Rio Grande do Sul, liderou a oposição ao regime militar sem apelar para a violência ou o radicalismo. A impunidade, para Pedro Simon, é a grande praga que nos assola e impede a realização de reformas econômicas e sociais em condições de superar o triste quadro de elites cada vez mais ricas e uma população cada vez mais descrente. Fica o registro, para ulteriores desdobramentos do processo político em curso, capazes de surpreender. Afinal, milagres às vezes acontecem...
Não dá para calar
O nevoeiro saiu momentaneamente de campo, entraram raios, como responsáveis pelo caos nos aeroportos. Já foram cadelas na pista, urubus no ar, chuva, obras, vendas de mais bilhetes do que poltronas pelas empresas, preços baixos que aumentam o número de passageiros, acusações de sabotagem por parte dos controladores de vôo, acúmulo de serviço, panes nos equipamentos e quanta coisa a mais?
É a falência dos transportes aéreos, fenômeno que atropela o País desde o final do ano passado. O jogo de empurra continua e prejudicados são os usuários, ao tempo em que o maior responsável, o governo, enterra a cabeça na areia em meio à tempestade, feito o avestruz.
Ninguém se iluda. Continuando as coisas como vão, logo virá a reação inevitável. Da indignação tem-se passado a reclamações veementes e invasão das pistas por passageiros amotinados, pois ninguém está disposto a relaxar e gozar, pelo fato de os aeroportos não serem motéis. Logo virá o desespero, através da depredação de instalações e aeronaves. Uma evidência a mais de que o Brasil não vive o seu melhor momento, desde a Proclamação da República, ainda que nos tempos de Deodoro da Fonseca o avião não existisse...